quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

MOMENTOS ÚNICOS

Há momentos que nascem únicos

e, ainda assim, o tempo insiste em torná-los comuns.

Outros, mais graves, crescem à sombra da indiferença,

quando deveriam ser interrompidos com firmeza

antes que o hábito os transforme em norma.

Talvez seja falha de um sistema que ensina a correr,

mas não a sentir.

Que orienta escolhas,

mas deseduca o essencial.

Há no humano uma tendência antiga:

abandonar o que sustenta

para se agarrar ao que brilha.

Confundir urgência com ruído.

Elevar o banal à categoria de indispensável.

E assim, o descartável ocupa o centro,

enquanto o vital afunda

nos poços profundos da ignorância existencial

lugares onde nem a lua cheia ousa entrar.

Só quando a finitude se aproxima,

como um aviso tardio,

é que se tenta compreender

o que sempre esteve à vista.

Perde-se, então, a vida.

Não por ausência de tempo,

mas por ausência de encontro.

Sem intimidade.

Sem presença.

Sem ter tocado o que realmente importava.

As atenções dispersam-se

em chagas emocionais repetidas:

algumas leves, passageiras,

como o falso regozijo que logo se desfaz;

outras rígidas,

presas ao mecanicismo de pensar e agir

sem alma.

E a vida generosa, silenciosa 

segue o seu curso.

Corre como um rio

em direção a um mar que existe,

mas que o insensato

jamais alcança.

Ontem, ouvi 1,3 centímetros de vida.

Um coração minúsculo,

sete semanas e quatro dias,

pulsando com firmeza

no ventre da minha Anna.

Aquele som não pediu argumentos.

Não pediu debate.

Apenas afirmou a sua existência.

Ali, compreendi mais uma vez 

que ser contra o aborto

não é rigidez,

nem retrocesso,

nem tradição cega.

É consciência.

A vida não é um erro a ser corrigido,

nem um excesso a ser eliminado.

É um princípio.

E, se para tudo existe solução,

ela começa sempre

no entendimento lúcido

do sim

e do não.

Regina Carvalho

07.01.2026 — Pedras Grandes, SC



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