quinta-feira, 28 de junho de 2012

COISA FEIA, GENTE FEIA, POSTURA FEIA...



Em 1977, em meio a uma ditadura militar, uma crônica que escrevi pela passagem da semana Santa que finalizei, dizendo: “Senhor, perdoai-os, porque  não sabem o que fazem”, custou-me a dor de passar anos a fio sem escrever em jornais e revistas.

Sem poder trabalhar em minha profissão e principalmente fazendo o que amava, busquei outros rumos de sobrevivência, sem, no entanto, abandonar minhas convicções e a certeza absoluta de me manter firme na coerência de meus propósitos profissionais, resguardando tenazmente minha dignidade pessoal, bem maior só comparada a minha própria vida.

A Ditadura, apesar de longa e desastrosa, deixou sequelas, mas passou, levando consigo o ranço da coisa ruim que representava, e aí, agora neste instante, desfila em minha mente outras situações, outros momentos desagradáveis que o ato contínuo de viver apresentou a mim, no decorrer da vivência, e surpreendentemente, sorrio, afinal, voltei a escrever e a ditadura foi derrubada.

Sorrio, sentindo o meu rosto iluminar-se, porque afinal, superei a todos com a galhardia de quem soube filtrar e processar as agruras e desencantos que vez por outra se apresentaram em forma de gente feia, que infelizmente sempre existirá.

Tanto tempo passou desde aquela época e ainda sou capaz de lembrar-me sem mágoas, mas absolutamente consciente de que esquecer, seria um erro.

Hoje, trinta e cinco anos depois, frente a outra ditadura, tão feia quanto, repito a frase da vitória:

- Senhor, perdoai-os, porque afinal, incautos que são, não sabem o que fazem

COISA FEIA, GENTE FEIA, POSTURA FEIA...

quarta-feira, 27 de junho de 2012

AO SOM DO CROQUE, CROQUE...



Mastigo umas nozes e o som do croque, croque, me remete à infância, aos natais na casa de minha avó paterna. Fecho os olhos e sou capaz de reviver a cena, tantas vezes repetida, cujo cenário rico me encantava nos detalhes elaborados com extremo carinho pelas mulheres da família.

A elegante e grande mesa, posta no centro da sala, forrada com toalha branca engomada e bordada, fartamente adornada com finas iguarias, que meus olhinhos de criança desejavam, fazendo parecer que o tempo para devorá-las, não chegava nunca.

Fecho então os olhos eternizando a memória, revendo instantes fascinantes que de tão poderosos e resistentes, me levam a um quase delírio de prazeres, através do simples ato de mastigar pequenas nozes.

Croque, croque, e então, posso enxergar a fumaça subindo e se perdendo pelo caminho de encontro ao nada do espaço das paredes brancas da cozinha, onde minha mãe, com uma enorme colher de pau, continha os siris que desesperados, tentavam escapulir, fincando suas garras nas bordas da gigantesca panela.

Aquele duelo de titãs ao mesmo tempo em que me fascinava, despertava em mim, uma pena enorme daqueles bichinhos, o que me rendia um bota fora constante da cozinha, pois segundo minha avó, eles demoravam a dormir por causa de meus lamentos a expressar por todo o tempo:

- Coitadinhos, minha mãe!

- Coitadinhos, minha avó!

Já lá fora no terreiro, amarrado a uma só perna e girando como um pião, havia sempre um peru, fazendo constantes glu, glus, que me causavam apreensão, pois achava o seu pescoço enrugado e muito feio, parecendo-me coisa talvez de um pequeno monstro, que eu já vira em algum gibi da coleção de meu irmão

Voltava então para cozinha, para sala ou para o outro lado do terreiro de  onde podia através da enorme porta de vidro, admirar a verde e fresca árvore de natal, repleta de enfeites e luzes que piscavam por todo o tempo e que de tão alta encostava  no teto do hall de acesso a sala principal, onde criança não entrava até na hora do Natal, servindo como mistério que aguçou minha imaginação, fazendo-me, através de meus olhinhos fascinados, elaborar histórias de príncipes e princesas que mais tarde inspiraram-me  a perseguir a beleza que fatalmente existia em todos e em tudo com que convivia, tornando a vida um pouco mais colorida e repleta de lembranças, até mesmo ao som do croque, croque, das nozes que mastigo.

Croque, croque, sons de lembranças de uma infância completa, de natais agregadores, onde o meu presente de Papai Noel era estar por todo o tempo entre meus pais, avós e tias, aromas e sabores, aprendendo a identificar instantes de pura felicidade, até mesmo quando apenas lembrando, como faço agora, ao som do meu mastigar de nozes.



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terça-feira, 26 de junho de 2012

O SABIÁ



O sabiá afoito chama a minha atenção e instantaneamente olho através da janela, na busca insana de poder enxerga-lo entre as infinitas folhas verdes e os emaranhados de galhos que serpenteiam as copas das arvores que filtram a chuva fina neste começo de manhã de terça-feira, que particularmente espero que seja repleta de luz.

Respiro fundo como de hábito, espreguiço o corpo e sinto um leve arrepio que me faz lembrar que o inverno chegou, mesmo que de mansinho, mesmo que acanhado, diante do sol ardente que, poderoso, não cede o seu lugar, induzindo-me ainda a crer que o  verão permanece, nem que seja na impressão gostosa de sua intrometida, mas bem feita presença em partes do dia.

Enquanto analiso este quase duelo entre o sol abusado e a tímida chuva, reparo que o sabiá cantador não está solitário nesta sua cantoria, pois noto a presença de canários sopranos e de outros cantadores que não distingo quais são.

Penso, então, que não estou sozinha neste meu acordar bem cedinho, pois logo encontrei  no sabiá, companhia assim como para nós  apareceram  mil pássaros cantando a vida, semeando a terra, trazendo a luz de um novo amanhecer.

Lembro-me das acerolas temporãs que de junto da porta da cozinha, salpicam o pátio, como se fossem contas coloridas que se contrastam com o azul do céu, desafiando-me por todo o tempo a esquecer do tudo lá fora, nublando-me a razão, levando-me a crer e a sentir com certeza incontestável, que o paraíso que busco lá fora, está bem aqui, do lado de dentro.

Uma terça-feira de paz com um paraíso dentro de cada um de vocês.

sábado, 23 de junho de 2012

Ainda o desencanto...




E aí, sentada em minha velha e aconchegante cadeira de balanço na varanda, logo bem cedinho, e olhando a natureza que totalmente despudorada se exibe para mim, deixo-me voar em minhas considerações a respeito da natureza humana e, mais uma vez, constato o quanto ainda nada sei a respeito e no quanto já não me surpreendo, ficando tão somente um pouco triste, pelo natural desencanto que me invade.

Olho então para as copas das mangueiras e dos coqueiros em uma silenciosa busca de amparo, tentando extrair dessas fortalezas, subsídios inspiradores que me façam compreender sem tantas tristezas a pequenez que ainda nos assola, enfraquecendo a vida em seu gigantismo que persistente, resiste em nós.

E aí, penso neste instante no quanto me abasteço, me amparo e me socorro, porque busco com admiração e com certezas, o sempre presente carinho que disponível se encontra em meus momentos de profunda reflexão, fazendo-me, assim, enxergar, sentindo um certo “Deus” em sua mais ingênua e palpável expressabilidade.

sábado, 16 de junho de 2012

CHOVE LÁ FORA



Chove lá fora, mas não no meu coração que mais uma vez bate forte sem aparente motivo, mas que somente eu, no reservado de meu íntimo, posso compreender, reproduzindo estas minhas emoções momentâneas em um sorriso maroto, mais condizente com um sol ardente, no entanto, não menos coerente com a alegria de poder usufruir  destes constantes instantes benditos de pura felicidade que, somados, desfilam em minhas lembranças, sem cortes ou adendos, mas todos, absolutamente emocionantes, a ponto de acelerar o coração, umedecer os olhos, arrepiar o corpo nesta manhã de sábado de um outono chuvoso, que me é capaz de  inspirar a desejar a você que me lê neste instante, um dia repleto de emoções, sejam elas quais forem, pois afinal, estamos vivos e isto é tudo quanto basta para que tenhamos a possibilidade de fazer ou refazer qualquer coisa.

Inclusive, perdoar a nós mesmos, por ainda não termos sido capazes de enxergar o sol que arde incansável em nossas possibilidades pessoais, presos que nos mantemos em nossos redutos também pessoais de falsos valores, não abrindo espaço para a nossa intima vontade voluntária que muitos chamam de Deus, mas que eu em minhas buscas existenciais prefiro chamar de vida, por que descobri que este Deus Vida é tangível, se encontrando em qualquer lugar, possível de ser tocado a cada milionésimo de segundo, dependendo tão somente de cada um de nós, na disponibilidade também pessoal de se permitir, arrepiar, chorar e se emocionar com o quase nada, que afinal é o tudo que nos pode interessar.

Pensando nisto, lembro-me de meu saudoso amigo e sogro “Tião Couto”, que de todas as criaturas com quem convivi, certamente foi a que mais me ensinou com sua naturalidade  de ser e de viver, a fórmula bendita de sentir o sol dentro de mim, mesmo que chova lá fora.

Um bom dia.  Seja com sol, seja com chuva.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

VIDA....BEM MAIOR






No início deste mês de junho, tivemos uma semana dedicada ao meio ambiente e à sustentabilidade, e pessoalmente fiquei encantada, pois mais uma vez, pude constatar o envolvimento de algumas pessoas que verdadeiramente tem consciência  ambiental, fazendo de suas vidas, o ano inteiro, exemplos da aplicabilidade desta mesma conscientização, a despeito de estarem praticamente sozinhas em inúmeras ocasiões e totalmente esquecidas e tão pouco reconhecidas e apoiadas pelos órgãos públicos, independentemente de onde estejam.

Ainda bem que elas existem e ainda bem que nos fazem lembrar a cada ano de que existe um planeta pedindo socorro, mas penso então, no quanto seria mais vantajoso se esta lembrança nos chegasse a cada instante, através de ações cotidianas se houvesse um pequeno amparo governamental com o apoio maciço da mídia, igual acontece quando do período político ou mesmo quando o assunto é novela, crimes bárbaros, ou corrupção.

Que maravilha seria, não é mesmo?

Imaginem, os jornais de horário nobre das TVs, batendo na mesma tecla, tal qual estão fazendo com as águas sujas do Carlinhos Cachoeira, da viúva assassina do YOKI, ou até mesmo do ainda em pauta, se bem que hoje mais discreto, MENSALÃO.

Por falar no mensalão, me vem na cabeça, imaginar também o quanto seria proveitoso se o nosso ex-presidente Lula apoiasse as campanhas ambientais, tal qual se empenha em defender os ladrões contumazes do erário público e de quebra distribuísse uns cartõezinhos vermelhos de solidariedade aos miseráveis que, aliás, continuam aumentando, apenas com uma pequena diferença que se expressa no plástico bancário de suas esmolas mensais.

Já imagino o sucesso que faria esta ideia de vida decente, sem lixões a céu aberto, sem a vergonha da perpetuação da ignorância existencial a cercá-los, na mente da maioria do povo brasileiro e quiçá mundial, pois afinal, o senhor de todos os poderes é também popular mundo afora.

Quem sabe, assim, a nossa Amazônia ficaria mais preservada dos olheiros de fora, mais cuidada pelos políticos de dentro e mais respeitada por todos nós. Não é mesmo?

Pois é, foi dada a partida para as convenções partidárias, e a nossa atenção estará voltada aos candidatos ao novo pleito em outubro e, certamente, todos sem exceção, como pré-candidatos, apoiaram a semana do meio ambiente, comparecendo aos eventos que se sucederam, mas e daí José?

Cadê o espaço que a nossa “Amada Itaparica” vem necessitando há anos para abrigar cães, gatos, cavalos e gado que a nossa indiferença abandona nas ruas?

Cadê a iniciativa dos prezados vereadores em promover, como já promoveu em outras ocasiões, a doação de um terreno e, com o apoio da prefeitura, disponibilizarem as condições mínimas para se tirar da rua e do abandono seres tão vivos como nós, que costumamos dizer que amamos?

Cadê os poderosos da cidade que se esquecem de priorizar junto aos políticos que bancam ou apoiam, caçambas de lixo para que os mesmos não permaneçam no portal de seus condomínios ditos de luxo?

Cadê os “FORMADORES” de opinião que jamais dão suas caras a tapas para exigir ações mais eficazes e menos vergonhosas de seus governantes?

Cadê os pretensos políticos que só dão as caras para tentar ser eleitos, utilizando-se de falácias populistas?

Finalmente, cadê cada um de nós que vive reclamando, mas que cala para não perder as possíveis ou já conseguidas vantagens em uma demonstração primária de omissão coletiva?



 Afinal, os políticos, se eleitos, imediatamente terão coisas mais importantes para cuidar, até porque todos que os apoiaram estarão apressados buscando os seus quinhões, enquanto os que perderam, estarão colocando suas violas no saco, justo para correr atrás do prejuízo, que cá pra nós, não é pequeno, pois quem banca campanha de político Tupiniquim, não perde jamais e exige tudo de volta com juros e correção monetária.

Esse é um jogo e entra nele quem quer.

Que coisa, heim?

Enquanto isso, os ambientalistas de plantão que não têm qualquer apoio e tão pouco crédito para trabalhar em seus projetos de qualidade de vida para todos, vão tocando suas ações com o apoio de meia dúzia de gatos pingados, aqui e acolá, formando assim poderoso e silencioso exército que mais que defender, estabelece territórios de vida e liberdade, onde eu e você, possamos ainda nos aventurarmos para curtir o prazer mesmo que inconsciente de pertencermos a um universo resistente, poderoso e repleto de saúde, que os incautos ainda não conseguiram destruir.

O Jornal Variedades presta homenagem a estas criaturas que com suas sensíveis e individuais condições de luta, sem discursos ou palanques, defendem a vida em toda e qualquer expressabilidade, pois compreendem que este é o bem maior de todos nós.