sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

OS EXTREMOS

...de qualquer natureza, sempre foram enormes impedimentos para mim, travando-me principalmente a criatividade em meus escritos. Assim como meu corpo, que reage imediatamente através da pele sensível, logo se mostra sofrida, como se gritasse em silêncio por socorro, apresentando manchas avermelhadas que surgem do aparente nada.

Portanto, deixe-me ser como sou…

Hoje, particularmente, o calor marca presença sem dó, e minha mente simplesmente recusou-se a pensar. Então, como escrever?


Passei a manhã inteira tentando me distrair desse mal-estar: lendo, assistindo TV, ouvindo música, preparando bolinhas de queijo. Mas só agora, insistente, sento-me diante do computador e forço a barra. Afinal, preciso voltar a escrever o livro que devo entregar à editora até o final de fevereiro.

Meta que me agrada profundamente…

Digo a mim mesma que entregarei e assim o farei, custe o que custar. Não só pela responsabilidade assumida, mas por tratar-se de uma releitura de um dos livros de minha querida tia Hilda, referência de tudo o que há de bom em minha vida.

Aprendi com ela a fidelidade no sentido prático dos propósitos, polindo a resiliência, lustrando as boas lembranças para que servissem de espelho e refletissem, sem máculas, as minhas mais puras e legítimas intenções.

Portanto, como posso aterrissar minha mente nos fragmentos cotidianos da rotina, nos maus agouros, nas frustrações insistentes, se minha direção é outra, que a meu ver é bem mais interessante?

O que fazer com minha seletividade vivencial, se meus propósitos, a cada década, estão mais fora do chão, onde os benditos detalhes jamais podem ser descartados, justamente por serem fundamentais?

Então, percebo que a palavra mais usada por mim é “me desculpe”, já que estou sempre esquecendo aquilo que, para o outro, é sempre fundamental. Não por displicência ou falta da devida atenção, mas porque não há lugar vago em minha mente para guardar, devido à superlotação de memórias, essas, sim, fundamentais para que cada dia vivido tenha feito sentido e valha o carinho de ser registrado, tão somente por gratidão.

Concluo que o que não lembro é porque foi rejeitado. E, aí, fazer o quê, além de pedir desculpas?

Todavia, não esqueci da receita do bolinho de queijo, que é simplesmente delicioso!

Do sabor dos beijos do meu Roberto, tampouco do cheirinho gostoso de meus filhos quando bebês. Assim como não esqueci dos aromas das mangas da minha casa de Itaparica, nem dos arrepios de cada amanhecer desta minha longa e prazerosa vida.

Portanto, me desculpem por eu esquecer disto ou daquilo que lhes parece importante eu lembrar.

Regina Carvalho – 9.1.2026

Pedras Grandes – SC

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