Vivemos de miudezas
que fingimos não ver.
O ir e vir dos filhos,
a fila que não anda,
o autocarro cheio,
o “bom dia” automático
que sai da boca
sem passar pelo coração.
São banalidades, dizemos.
Mas são elas que nos gastam os dias,
que polêm ou apagam
o brilho dos instantes
conforme a forma
como os deixamos entrar.
Choramos perdas,
engolimos a fome,
seguramos o corpo e a alma
no trânsito parado.
Pagamos caro por serviços sem rosto,
por impostos sem retorno,
por vozes metálicas
que nunca dizem o nosso nome.
O dinheiro foge
antes do fim do mês,
e a injustiça grita:
trabalhamos tanto
para ver o pior vencer.
Gastamos anos
a perseguir corpos impossíveis,
a competir com espelhos cruéis,
a medir amor
pela atenção desviada
de quem está ao nosso lado.
E então, um dia,
sem aviso,
olhamos o espelho com coragem demais
e ele responde sem piedade:
envelheceste.
Virgem Maria.
Quando foi que o tempo passou
sem pedir licença?
Agarramo-nos a tábuas de salvação,
sabendo que a física
e os hormônios
descem ladeira abaixo
sem freio.
O máximo que conseguimos
é atrasar o tombo
pagando caro por isso.
E lá está ele outra vez:
o dinheiro, agora chamado aposentadoria,
mais curto, mais tímido,
acabando sempre
antes do fim do mês.
Só então percebemos:
os sofrimentos diários
pediam atenção,
não desprezo.
Porque o tempo,
esse safado silencioso,
passa calado,
vai levando firmezas, curvas, ilusões,
e devolve lembranças.
Mas ainda assim
há beijos que ficaram,
risos que salvam dias,
carícias que resistem,
sonhos que insistem.
A vida não é leve,
mas é intensa.
Não é justa,
mas é bela.
E apesar de tudo,
apesar de nós,
a vida é bonita.
É bonita.
É bonita.
Regina Carvalho- 13.1.2026 Pedras Grandes SC

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