terça-feira, 13 de janeiro de 2026

FALSO BRILHANTE

Vivemos de miudezas

que fingimos não ver.

O ir e vir dos filhos,

a fila que não anda,

o autocarro cheio,

o “bom dia” automático

que sai da boca

sem passar pelo coração.

São banalidades, dizemos.

Mas são elas que nos gastam os dias,

que polêm ou apagam

o brilho dos instantes

conforme a forma

como os deixamos entrar.

Choramos perdas,

engolimos a fome,

seguramos o corpo e a alma

no trânsito parado.


Pagamos caro por serviços sem rosto,

por impostos sem retorno,

por vozes metálicas

que nunca dizem o nosso nome.

O dinheiro foge

antes do fim do mês,

e a injustiça grita:

trabalhamos tanto

para ver o pior vencer.

Gastamos anos

a perseguir corpos impossíveis,

a competir com espelhos cruéis,

a medir amor

pela atenção desviada

de quem está ao nosso lado.

E então, um dia,

sem aviso,

olhamos o espelho com coragem demais

e ele responde sem piedade:

envelheceste.

Virgem Maria.

Quando foi que o tempo passou

sem pedir licença?

Agarramo-nos a tábuas de salvação,

sabendo que a física

e os hormônios

descem ladeira abaixo

sem freio.

O máximo que conseguimos

é atrasar o tombo

pagando caro por isso.

E lá está ele outra vez:

o dinheiro, agora chamado aposentadoria,

mais curto, mais tímido,

acabando sempre

antes do fim do mês.

Só então percebemos:

os sofrimentos diários

pediam atenção,

não desprezo.

Porque o tempo,

esse safado silencioso,

passa calado,

vai levando firmezas, curvas, ilusões,

e devolve lembranças.

Mas ainda assim

há beijos que ficaram,

risos que salvam dias,

carícias que resistem,

sonhos que insistem.

A vida não é leve,

mas é intensa.

Não é justa,

mas é bela.

E apesar de tudo,

apesar de nós,

a vida é bonita.

É bonita.

É bonita.

Regina Carvalho- 13.1.2026 Pedras Grandes SC

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