Quatro e trinta. Sou acordada por uma orquestra sinfónica de grilos e sapos, tendo como solista uma afinadíssima cigarra. Abro a janela e volto a deitar-me, agora com diante dos olhos mais um espetáculo da natureza, cujo bilhete de acesso só me custou paixão.
Penso, diante de tanta beleza, no quanto ainda, como humana, sou tola e frágil nas emoções e nos sentimentos. Lamento momentos perdidos entre a vaidade e a ambição, que me roubam a graça maior de me sentir apenas vida, porque me deixo induzir pela sedução do estéril e do pueril que os meus sentidos adulterados insistem em reconhecer.
Respiro e não me sinto ar. Caminho e não me reconheço caminho. Olho-me no espelho como quem confere um objeto perdido, e não como quem encontra pulsação.
Conto os dias, mas esqueço-me de ocupá-los. Cubro o meu corpo enquanto me abandono por dentro.
Chamo de rotina o que é simplesmente medo do inusitado; chamo de prudência o que é fuga; chamo de vida o que é apenas o intervalo entre muitos cansaços.
Todavia, a terra insiste em brotar. O sol insiste em nascer. O coração insiste em bater, mesmo eu insistindo em não o sentir, acreditando que sobrevivo inteira, controlando o tempo, sem a ele pertencer.
E assim, rodeada de vida por todos os lados, sigo incapaz, na maioria dos meus instantes, de reconhecer que também sou matéria viva em passagem, como a neblina que já se dissipou.
A natureza pulsa e eu, distraída, quase não escuto.
Regina Carvalho
12/01/2026 — Pedras Grandes, SC

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