Clair de Lune, de Claude Debussy, sempre foi parceiro dos meus escritos, pois gosto de ouvi-lo enquanto deixo fluir a mente. Mas, neste amanhecer, mudei o ritual e optei por primeiro temperar uma carne para depois sentar-me diante deste espetáculo da natureza e, então, começar a escrever. Só que, desta vez, com um dedo furado já que a faca, amolada e pontiaguda, não perdoou o fato de minha cabeça estar em outro lugar.
Aonde?
Sei lá…
Na realidade, em lugar nenhum específico, pois a expressão “eu acho” predominava entre uma cena e outra que minha memória trazia, como se estivessem em um rolo de filme disparado.
De repente, tudo estancou.
E então pude me lembrar do meu enfado da noite anterior, enquanto, pela milésima vez, assistia aos depoimentos dos envolvidos no escândalo do Banco Master, assim como à manifestação popular pedindo justiça pelos responsáveis pela tortura e morte do cãozinho Orelha, no Jornal Nacional. Perguntava a mim mesma: por que estou assistindo a esse pot-pourri de notícias de um mundo cujo desempenho humano em quase nada mais me interessa, ainda mais quando são repetidamente noticiadas, enquanto outras, de evidente interesse nacional, são vergonhosa e convenientemente escondidas nas gavetas tendenciosas de diretores e editores das mídias jornalísticas?
Cheguei à conclusão absurda e dolorosamente triste de que, há muito, deixei de ter opinião formada sobre a maioria do que vejo e ouço, justamente por não mais acreditar em absolutamente nada. Afinal, fatos comprovados já não são aceitos como reais; narrativas articuladas passaram a ser verdades absolutas; imagens, sejam do que for, podem ser moldadas ao gosto de cada um. Pessoas e valores diversificaram-se tanto que encontrá-los com um mínimo de lógica tornou-se como procurar agulha no palheiro.
Sem esquecer que respeito, ética e vergonha na cara simplesmente desapareceram, sobrevivendo a duras penas em um restrito grupo de saudosistas.
Diante disso, talvez o melhor seja ficar olhando a natureza que, mesmo muito sofrida, resiste, e dela absorver uma beleza natural e saudável que, fora dela, já não existe.
Regina Carvalho
31.1.2026 — Pedras Grandes, SC

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