São seis e trinta, e no horizonte a neblina vai-se dissipando lentamente, escondendo-se entre as colinas, mergulhando silenciosamente no mar da vegetação nativa que adoro apreciar a cada amanhecer.
E como não associar esse movimento à mente humana, que esconde emoções e consequentes sentimentos por entre comportamentos aparentemente sociáveis?
Talvez a diferença crucial resida exatamente na absurda falta de generosidade do “apenas depois”.
Enquanto a neblina abre espaço para o sol, que aquece e seca a humidade por ela deixada, o engodo humano tenta fechar a passagem do outro, muitas vezes deixando como lastro a decepção, quando não, a morte.
Em momentos como este, em que aprecio mais um amanhecer, penso no quanto, mesmo dotados de tudo o que nos permite criar, modelar ou simplesmente aceitar, duelamos sem tréguas numa dúbia presença, como se a vida, em sua perseverança, não se repetisse ininterruptamente, sendo apreciada ou não, numa tenacidade ora ensolarada, ora chuvosa, mas sempre absolutamente fiel ao seu previsível continuísmo.
Viver é repetir-se com fidelidade, sentir é decidir se estaremos presentes ou apenas visíveis.
Regina Carvalho – 11/01/2026
Pedras Grandes – SC

Nenhum comentário:
Postar um comentário