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Mostrando postagens de Março, 2016

Ceia da Fraternidade

Hoje, domingo da Páscoa, acordei sem uma gota d’água nas torneiras de minha casa, o que é um transtorno considerável, já que nos 27 dias em que moro neste endereço, esta é a terceira vez que a bendita água some das torneiras durante dois, três e até quatro dias. Este é um desabafo que se une a inúmeros outros que ouço e transmito através do programa diário que comando nos últimos quatro anos pela Rádio Tupinambá, confessando que somente agora, sentindo na pele, posso avaliar com absoluta realidade o que significa ficar sem água em uma cidade onde a temperatura média é de 26 graus. O pior de tudo é esta sensação de total impotência, já que este é um problema que assola todas as regiões da cidade e como disse há tantos anos que a certeza de que nada será feito é definitiva, ficando as necessidades básicas de toda uma população, à mercê da boa vontade deste ou daquele gerente da Embasa que são simpáticos, mas absolutamente incapazes de solucionarem este crucial problema. Então, a quem recor…

VÁ CISCAR EM OUTROS TERREIROS

Ciscar é o mesmo que esgaravatar o solo em busca de alimentos, mas popularmente é o mesmo que dizer:“sai da minha vida, me erre, me poupe ou coisa parecida”. Há vinte e poucos anos atrás, escrevi “Os pássaros”, onde fiz analogia com o meu universo pessoal, satirizando situações, emoções, sentimentos e pessoas que o compunha, num desabafo amargo de uma mulher cansada da hipocrisia que a cercava, deixando revelar sem qualquer reserva  a ânsia louca, não de fugir, mas de seguir caminho na busca de terreiros mais verdejantes. Voa passarinho, voa. O voo é para quem quer voar Não sei se minhas asas aguentam O voo que quero dar. Superados os medos,  Bati minhas asas e voei E em meio a tantos voos Encontrei a vida e me apaixonei. E hoje, depois de tantos voos fascinantes Recuso o meu farto chão aos incautos E mando ciscar noutros terreiros...

CALA BOCA JÁ MORREU, QUEM MANDA AQUI SOU EU.

Com o declínio da Ditadura, foi ressurgindo dos porões das mentes humanas brasileiras uma espécie de desforra inconsciente, que foi se infiltrando nos convívios sociais e políticos e que, sorrateiramente, foi aniquilando os ideais, desfigurando em parceria com a globalização os valores que figuravam como orientadores de condutas e levando as pessoas a crerem que o que, até então, lhes servia de parâmetros, de um momento para outro, se transformou em abuso ou inconveniência. Foram tantos anos de “cala boca”, que perdeu-se o hábito de expressar-se opiniões que fossem, tão somente, a expressão pura e comprometida da visão individual, adquirida através de um conjunto de subsídios sorvidos através da educação formal, doméstica e exercitada no vasto convívio, fosse no universo pessoal, histórico ou informativo. Penso então, que em meio a tantas falácias que nos rodeiam, o cala boca não morreu, apenas se travestiu de uma velha e corroída postura chamada de “conveniência”, que enganosa e muitas…

NOVO PRIVILÈGIO

Se antes eu apreciava o nascer de cada dia através da janela da sala, frente ao computador, quis Deus que eu fosse mais além e por pequenos minutos agora posso admirar esta grandeza da natureza, ainda deitada, num despertar simplesmente divino. E aí, como um filme, minhas lembranças me remetem à infância e aos meus anoiteceres e amanheceres no verão carioca e do hábito familiar de dormir no amplo terraço do apartamento, contando estrelas, para dormir mais rápido, dizia minha mãe, e deixando a brisa marinha refrescar nossos corpos, assim como despertando com os primeiros raios do sol. “Ah! Que saudades que eu tenho da aurora de minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais”, Casimiro de Abreu registrou em versos esta maravilha e certamente o universo, generoso com quem o admira, reprisa a cada manhã, para que não seja esquecido por ninguém a maior riqueza que um ser vivo pode ter. E entre a contemplação e as recordações, penso no sentido maior de se vivenciar a Semana …

RAPAZ....

Mesmo que eu vivesse o dobro do que já vivi, certamente ainda cometeria em dados momentos, mesmo cada vez mais esporádicos, deslizes avaliativos, que me levariam a ser fisgada pelo meu emocional apaixonado e absurdamente passional. Que trabalheira tem sido ao longo de minha vida o controle diário, senão momentâneo, desta profusão de emoções que marcaram minha personalidade, fazendo de mim um ser em permanente mutação, já que compreendi desde muito cedo que precisaria acompanhar as evoluções constantes e ininterruptas da própria vida. E como o ato contínuo de viver cobra e exige de cada ser humano esta performance! Adaptabilidade sutil ou grosseira à alma de cada criatura, mas absolutamente presente em cada decisão que se tenha de ter em relação a qualquer coisa, e aí, como incorporar toda esta sucessão de contradições à um convívio consigo mesmo e com os demais, se o emocional por mais influenciado que seja pelos sentimentos ou pelo sistema social em si, também não cessa sua cobrança. Per…

PARA SE PENSAR...

As redes sociais deveriam pela lógica ser veículos instantâneos de comunicação, onde as pessoas pudessem ampliar seus círculos de amizades, além de serem mecanismos de interação e integração de conhecimentos, onde as opiniões diversificadas serviriam de parâmetros, possibilitando um enriquecimento pessoal sem limites, quanto à apreciação das infinitas visões interpretativas, fazendo dos contraditórios oportunidades preciosas para o exercício da tolerância e da reflexão. Infelizmente, não tem sido estes os resultados possíveis de serem observados, ficando no máximo como um aglomerado de pessoas cujas visões em relação a determinados assuntos são absolutamente concordantes, não abrindo espaço para a bendita troca de visões, o que limita enormemente tirando a autenticidade dos relacionamentos, na medida em que se fecha neste ou naquele aspecto e, portanto, descaracterizando o propósito básico da troca saudável de experiências. Essa distorção sorrateira, mas absurdamente destrutiva, se real…

Me dê licença, por favor...

Tenho reparado que de uns tempos para cá, esta expressão tão simples tem caído em desuso e o mais inexplicável é que inclusive vem ocorrendo em cidades consideradas pequenas, justo porquê, de um jeito ou de outro, as pessoas pela proximidade acabam se conhecendo, mesmo que apenas de vista. Esta proximidade oferecia um diferencial em relação às cidades maiores, o que atraia a atenção, fazendo delas recantos bucólicos e acolhedores, mas parece que a globalização com seus tendões agregativos, não só trouxe uma infinita interatividade, como também vem induzindo silenciosamente as criaturas destes locais a copiarem posturas que nada condizem com a fraternidade existente nas culturas interioranas, transformando-as gradativamente em arremedos, cópias mal elaboradas que as despersonalizam, tirando seus encantos naturais. O bom dia, o boa tarde ou o boa noite, não podem desaparecer, assim como o por favor, o desculpe, o obrigado. Enfim, pequenas atenções que aprendemos a reconhecer como atos de …

REFLETINDO

NESTA MANHÃ, em que apenas acordei sem maiores perspectivas, além das cotidianas, inevitavelmente, penso e executo o que preciso organizar de prático, mas entre uma atividade e outra, dou lugar à algumas reflexões que já fazem parte de minhas inquietações diárias e, certamente, a falta do respeito humano é a mais recorrente. Geralmente, escuto e leio muito a respeito, mas infelizmente pouco constato no cotidiano, levando-me a concluir que na matemática das posturas pessoais, a ordem dos fatores altera consideravelmente o produto, já que na inversão dos valores de convivência, cada fração ordinária é determinante na composição das equações humanas. As referências, que chamamos de exemplos, foram se adequando aos novos tempos sem que houvessem diretrizes e, entre tapas e beijos, chegamos até os dias atuais tendo que assistir de forma invasiva, exemplos de culturas diferenciadas sem que tenhamos qualquer apoio orientador ou explicativo, ficando a globalização como mestre indutivo. Assusta-m…

REFLETINDO

O tempo lá vai passando sem pedir licença e muito menos perdão pelos estragos que vai causando. Olho no espelho e vejo a cada ano, as rugas se formando, a pele esgarçando-se e o que antes era firme e inabalável, torna-se a cada década vivida, mais flácida e muito menos resistente. Penso então na mente e nos sentimentos e tento enxerga-los através da imagem que vejo refletida no espelho e qual a minha surpresa, tudo também se alterou com o passar do tempo, quase nada restou de um passado que parece longínquo, mas que na realidade, foi praticamente ontem, justo porque foi tão ligeiro que sequer teria me dado conta se não fossem pelos espelhos espalhados pela casa. Todavia, sorrio, pois ao contrário da matéria que se deteriora, a  mente e os sentimentos se reciclaram através dos tempos vivenciados e cá estou eu, neste instante, sorrindo de pura satisfação ao constatar que neste aspecto, o devastador tempo me foi favorável, aperfeiçoando o que eu já tinha de melhor, oferecendo-me clara lucid…