Nesta Semana Santa, em que pessoas que se intitulam cristãs, no Brasil e no mundo, ainda evitam comer carne, fazem vigílias e dobram seus joelhos nos templos, por incrível que pareça, muitas também defendem a liberação do aborto, sob a argumentação de que a mulher pode fazer de seu corpo o que bem entender.
Partindo dessa premissa, repleta de equívocos em relação aos preceitos do cristianismo, estabelece-se um confronto direto com a própria noção de justiça. Afinal, se, como mulher, posso violar meu próprio corpo e eliminar um ser que nele habita, por que não poderia também usar minha mente para comandar minhas mãos e braços a fim de eliminar tudo aquilo que eu “achar” um incômodo em minha vida?
Essa observação não se ancora em moralismos, mas limita-se à incoerência que se apresenta em quem se diz cristão. Isso porque Jesus pregou, em todo o tempo, o amo e, neste, não há espaço para o assassinato, ainda que a vítima esteja inserida em meu próprio corpo.
São muitas as razões que permeiam as polêmicas desse delicado tema, frequentemente evitado. Ainda assim, escolho abordá-lo, pois acredito que não haverá argumento capaz de justificar o ato de tirar uma vida e, ao mesmo tempo, não ser enquadrado pelas leis criminais e ainda se declarar seguidor de Jesus e filho de Deus, amparado na “edge” de um direito pessoal que, para um cristão, deveria ser impensável.
Quem me conhece ou me lê sabe que não sou uma pessoa religiosa. No entanto, também sabe que busco, por meio dos meus escritos, transmitir a fraternidade e o amor como possibilidades reais nas convivências humanas ou não, desde que o véu da hipocrisia, da mentira e da conveniência seja contido.
E o que constatamos é justamente o contrário: estamos fora de controle aqui e no mundo. O mais alarmante é que sequer nos damos conta dessa degradação humana que avança em ritmo acelerado, destruindo o planeta e, por consequência, a vida. Enquanto isso, seguimos distraídos com os paredões semanais do BBB, fingindo não perceber que muitos dos nossos jovens desconhecem até mesmo o que está escrito na bandeira do próprio país, embora tenham o poder de escolher quem irá governá-lo.
Aceitamos, com inquietante passividade, a presença de criminosos nos espaços de poder de nossa suposta democracia, absorvendo, de forma omissa, a crescente violência que nos cerca, fruto abundante de uma corrupção institucional que, como praga, mata e mutila continuamente. E, ainda assim, tratamos a corrupção política e judiciária como mais um elemento banal do nosso tempo.
Penso que, em vez de criar novas leis para atender às demandas moldadas por conveniências políticas, deveríamos revisar as já existentes: eliminar as inúteis e fortalecer, com rigor, aquelas que permitem brechas estratégicas para quem pode pagar por uma justiça maleável.
Penso também que, para se dizer cristão, não basta seguir rituais, abster-se de carne ou frequentar templos. É preciso reconhecer as distorções, evitar cometê-las e não aceitá-las como “normais” em uma sociedade que se pretende evoluída.
Não pedirei desculpas por minha ousadia. Como cética em busca de evidências, anônima, sem títulos ou comendas, muitas vezes vista como uma legítima “gauche” sistêmica, não poderia me calar diante de uma problemática social e humana dessa magnitude. Eu não seria a Regininha, crítica da hipocrisia e defensora apaixonada da vida, se assim o fizesse.
Então, como defender os direitos da mulher no que diz respeito à segurança e preservação da sua vida, se ela reivindica, simultaneamente, o direito de interromper outra vida que se forma em seu ventre?
No mínimo, inverossímil.
Regina Carvalho – 01/04/2026
Pedras Grandes – SC
Ilustração IA

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