sexta-feira, 10 de abril de 2026

O DRAGÃO E O VIRA-LATA: O Abismo entre Metas e Migalhas

A recente aprovação de novos benefícios financeiros pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) é o sintoma de uma patologia profunda. Ao observar esses privilégios, recordei-me de diálogos com o amigo Jeferson Borges Zon sobre a capacidade de desenvolvimento da China. É inevitável traçar parâmetros entre o Brasil e a potência asiática, embora a distância em cultura, educação e cidadania pareça nos separar por anos-luz.

Para compreender a ascensão chinesa, é preciso olhar para o seu nacionalismo. Ele é o coração do país, movido pelo desejo de recuperar o orgulho nacional após séculos de instabilidade. Para o cidadão chinês, ser nacionalista é trabalhar pelo progresso tecnológico, colocando os interesses da pátria acima de qualquer indivíduo. Na prática, o conceito de República deles ignora a fragmentação partidária ocidental. O poder centraliza-se no Partido Comunista, que organiza a vida social para garantir estabilidade e atingir metas de longo prazo.

Muitos questionam a liberdade nesse modelo. A visão chinesa, contudo, é pragmática. O povo valoriza a segurança pública e a estabilidade econômica que permitem o direito básico de caminhar à noite sem medo. Para milhões, a liberdade mais urgente foi a superação da fome. Embora o controle tecnológico e a censura sejam rigorosos, parte considerável da população aceita a falta de liberdades políticas em troca de ordem. O que diferenciou a China de fracassos como a União Soviética ou Cuba foi a flexibilidade econômica. Como disse Deng Xiaoping, não importa a cor do gato, desde que ele cace o rato. O resultado foi a erradicação da pobreza extrema para 800 milhões de pessoas.

Ao migrar a percepção para o Brasil, a comparação torna-se dolorosa. Em regimes autoritários sem fiscalização, a corrupção costuma ser sistêmica, criando elites luxuosas enquanto o povo sofre com a escassez. Entretanto, a China compreendeu que a corrupção é um câncer terminal para qualquer regime. Xi Jinping lançou uma campanha implacável, punindo de pequenos funcionários a grandes líderes, as chamadas "moscas e tigres". O modelo chinês exige que o capital seja reinvestido na nação, e não evadido para contas no exterior.

Diferente da China, o Brasil vive uma democracia perdulária e ostensivamente vergonhosa. Gastamos fortunas em campanhas eleitorais para promover um rodízio entre organizações criminosas. Enquanto isso, o cidadão assiste a tudo com uma passividade assustadora, votando de forma eufórica em autoridades que legislam em causa própria. Eles justificam salários mínimos pífios e auxílios assistenciais de fachada enquanto garantem seus próprios "penduricalhos" constitucionais.

O problema central talvez não seja apenas o regime de governo, mas o povo e sua cultura atávica de submissão. Somos estruturalmente acomodados, adaptando-nos com a mesma facilidade tanto ao luxo quanto à miséria. No fim, a realidade é amarga: em um cenário onde o Estado serve a si mesmo e o povo se cala, a China deixa de ser um exemplo para se tornar um espelho incômodo. Temos exatamente o que merecemos.

Regina Carvalho

10.4.2026 – Pedras Grandes, SC

Ilustração IA

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