Neste amanhecer, eu daria tudo para comer um pãozinho de sal, que por aqui chamam de pão de água, bem quentinho e com manteiga. É impossível, já que a padaria fica a uns quatro quilômetros, no centro de Pedras Grandes, e hoje ainda é feriado nacional. Resta-me tapear a vontade com o costumeiro pão de forma.
A vontade é tanta que, até agora, não consegui escrever sequer uma linha. Afinal, se não tem tu, vai tu mesmo. Essa velha expressão popular significa contentar-se com o que está disponível ou aceitar a segunda opção. É uma adaptação comum na minha vida e na da maioria dos brasileiros quando o assunto é o que se tem para hoje.
Embasados nessa característica do povo, os políticos utilizam essa prática desde a colonização. A coisa se solidificou a ponto de, hoje, ser quase impossível mudar. Até nós, cidadãos confusos, já não dispomos de discernimento para avaliar as referências do que desejar. Essa situação esdrúxula leva a uma forçosa adaptação a tudo, a fim de não interrompermos o fluxo do cotidiano. Como sabemos que uma andorinha só não faz verão, seguimos a correnteza da indução midiática.
E não digam que não é assim. Já ofereci o exemplo do pão, mas poderia listar adaptações tão absurdas que me custa acreditar no que vejo. Em muitas situações, fiz-me de cega, surda e muda, e depois senti vergonha de mim mesma. Os ditados populares são sínteses das realidades com as quais achamos graça apenas para disfarçar nossa incapacidade de reconhecer a falta de lógica em quase tudo o que vivenciamos.
Aceitamos o falso como verdadeiro. Ingerimos comida com agrotóxicos, morremos na fila do SUS e aceitamos aumentos inescrupulosos do salário mínimo enquanto autoridades legislam em causa própria. Desconsideramos o fracasso na educação, que agora precisa pagar para que adolescentes ocupem uma carteira escolar. Espremo-nos em trens e ônibus para sobreviver. Esperamos horas sob o sol para uma travessia medíocre em ferrys velhos e malcheirosos.
Lotamos os CAPS em busca de uma tarja preta como consolo, enquanto pagamos dízimos e ofertas esperando que o divino solucione o que nos falta. O Diabo fica como o provedor das drogas e da falta de vergonha daqueles que seguem vidas regaladas, aplaudidos por nós. Concluo que a frase bíblica sobre dar a César o que é de César ainda não foi compreendida. São tantos os Césares recebendo nossas moedas suadas que nem fé genuína sobra para Deus. O Diabo acaba ficando com todas as glórias, seja nos palanques, nos becos ou nos tribunais, onde a justiça deveria ser justa.
Regina Carvalho-21.4.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração IA

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