Meus ídolos estão partindo e deixando o meu Brasil a cada ano mais solitário em se tratando de referências de qualidade. As novas gerações podem ter ouvido falar ou lido a respeito, mas não sentiram a emoção de vê-los em ação.
Particularmente, nunca fui uma fã fervorosa, mas desde muito cedo valorizei e absorvi o talento de alguns deles, tornando-os referências preciosas. Pensando cá com os meus botões, neste incrível amanhecer em que tenho o privilégio de contemplar o mundo ainda sob o escurinho, observo a manhã se espreguiçando com preguiça. Por aqui, no Sul, nesta época do ano, as manhãs não se fazem de rogadas. Elas desfrutam o quanto podem das carícias da noite anterior, deleitando-se nas espessas neblinas e sugando os fartos orvalhos da vegetação abundante.
Nesses pensamentos, percebo que realmente nasci em uma geração rica, onde talentos jorravam em saudável profusão, fosse aqui ou em diversos pontos do planeta. Eles estimularam rumos e envolveram em inesquecíveis emoções a alma daqueles que tiveram o prazer de vê-los brilhar.
Eu não só os vi, como fui vizinha de muitos deles. Foi um acaso logístico carioca, em um tempo em que admirar um ídolo ao esbarrar com ele na padaria ou no mercadinho não roubava dele o seu direito à privacidade. Apesar de próximos, eram para mim intocáveis quando estavam fora dos palcos, das quadras ou dos campos.
Portanto, contabilizar suas partidas é um luto simbolicamente dolorido. Fica na mente e nas emoções de quem os viu nascer, crescer e brilhar a triste sensação de uma perda inestimável. Trata-se de um modelo único, impossível de ser reproduzido. Penso que, mais do que a dor da partida, fica uma espécie de culpa íntima, como se não tivéssemos oferecido tudo a que tais preciosidades mereciam. Suas partidas nos lembram que estamos na fila, esperando a nossa vez, o que torna impossível não sentir um misto de medo e lamento.
Mais um se foi. Fico vendo o novo surgir, trazendo consigo valores que, em sua maioria, não sou capaz de assimilar. Resta-me o consolo de ainda possuir lembranças que navegam entre o belo e a extraordinária qualidade daqueles que iluminaram a minha geração. Ontem, 17 de abril de 2026, a fila andou, vagando o lugar brilhantemente ocupado por Oscar Schmidt. Hoje e amanhã, quem será?
Regina Carvalho- 18.4.2026 Pedras Grandes SC
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