domingo, 12 de abril de 2026

DOURANDO A PÍLULA

Pois é, pensando nesse amanhecer de domingo que se apresenta friorento e nublado, num inverno que apressado invade o outono sem pedir licença, cá estou pensando nas dourações das pílulas que de uns anos para cá, ao contrário de melhorar os relacionamentos de qualquer natureza, tem criado silenciosamente uma imensa desconfiança que se manifesta quase que instantaneamente, ferindo e até matando como se cada pessoa fosse uma navalha afiada.

Aos poucos, os naturais véus que eram necessários como preservação individual e respeito ao outro foram se tornando mais espessos com consequente rigidez, impedindo a passagem mais que necessária do bom senso avaliativo.


A sensação que sinto cada vez mais aflorada é a falta do meio-termo, que é o equilíbrio avaliativo indo do oito ao oitenta, como medidor de condutas e valores que, por sua vez, têm a cada dia se multifacetado a fim de atender esta ou aquela pessoa ou grupo, transformando suas visões sobre qualquer assunto em verdades absolutas, onde não cabem ponderações.

E aí... Onde foi parar a bendita liberdade?

O relativismo agressivo e possessivo como o inverno cá do sul invade sem pedir licença o direito que deveria ser inalienável para qualquer ser humano em poder exercer o seu direito em ser e pensar, sem fazer deste uma espada afiada de ameaças aos que pensem diferente, sufocando e marginalizando os demais sob a batuta do que chamam de direito em relação a isto ou aquilo.

A garantia do sucesso desta mordaça e consequente mudança radical das condutas conta com o irrestrito apoio das grandes emissoras que invadem, desde as madrugadas de cada amanhecer, as casas, dantes lares de cada cidadão, com a desculpa maldosa e interesseira em retratar o que o espera lá fora, seja nos carros blindados, nos ônibus, trens e metrôs, a caminho do trabalho ou da escola.

Tudo se encontra tão absurdamente distorcido que os doutores responsáveis pela educação do país, alinhados com a moderna psicologia, mataram a saudável concorrência e os estímulos de conquista, eliminando as reprovações num nivelamento cruel e negativamente indutor em relação a todo aluno oriundo de sua própria essência ou de raros lares ainda sobreviventes que, diante de tal quadro, pergunta a si mesmo: estudar para quê, se já estou automaticamente aprovado?

Não satisfeitos, os iluminados doutores ainda criam mais um programa social chamado “Pé-de-Meia” como estímulo ao retorno do aluno às escolas. Pode um absurdo desses?

Tanto pode como acontece, para desgosto de qualquer professor consciente que preza os objetivos da sua fundamental profissão, pois reconhecem a mortandade das visões progressistas em cada mente ainda em formação.

Enquanto isso, criminoso menor de 18 anos não pode ser criminalizado pelos seus atos e, muito menos, tirar sua CNH, neste caso, desconsiderando a impulsividade própria dos adolescentes e assim impulsionando-os a um ato infracional, impedindo-os de se qualificar para tal. Mas pasmo ainda mais ao lembrar que o mesmo está apto em todos os níveis a votar como um cidadão qualificado, a fim de escolher os dirigentes do país.

Novamente, reconheço que sou uma saudosista e como não ser, já que evolução e progresso são sistematicamente distorcidos ao ponto de eu e você sentirmos na pele os seus efeitos?

O passado passou, mas quem o viveu e ainda sobrevive às barbáries dos relativismos de hoje sofre, lamentando que: se era ruim com ele, hoje, bem pior se está sem ele.

As pílulas são douradas, mas a tinta é guache, de fácil remoção...

Regina Carvalho

12.04.2026 – Pedras Grandes

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