Acordei pensando no silêncio. Afinal de contas, quase ninguém mais sabe do que se trata. Trocamos alhos por bugalhos quando este silêncio, por ser tão grosseiramente sentido em constância, é assimilado pelo cérebro de tal forma que, de um momento para o outro, simplesmente deixa de existir. O que, decerto, não condiz com a realidade.
O barulho sublimado pouco a pouco, sem que a pessoa perceba, vai minando e se acomodando no sistema cerebral. Afeta as áreas cognitivas, muda o humor e os comportamentos, atingindo as emoções e a clareza em discernir a intensidade real de qualquer outro movimento pessoal ou coletivo.
As novas gerações já se desenvolvem dentro deste padrão. Ou seja, não exercitam esse videotape interno que chamamos de inconsciente, que armazena e libera fatos relevantes, devidamente arquivados, sempre que acionado pelo consciente. Na realidade, esse é o arquivo individual de nossas experiências vividas.
Este arquivo é o provedor, a nossa IA particular, rica de informações e conhecimentos que fornecem os parâmetros comparativos para avaliar precisamente qualquer novo aspecto vivencial. Muitos deles são considerados obsoletos frente às novas conquistas tecnológicas e científicas, mas permanecem essenciais.
Penso que a vivência de cada pessoa molda sua compreensão dos fatos, tornando sua avaliação muitas vezes falsa se não dispõe de outro parâmetro para comparar. Já que o silêncio, esse favorecedor avaliativo do consciente, não mais existe, as percepções tornam-se igualitárias quanto à quantidade e qualidade dos ruídos. Esse padrão barulhento, invasivo e constante, leva a pessoa a não mais conseguir se conduzir sem ele.
O silêncio pode ser tão enlouquecedor quanto o barulho excessivo. Os obsoletos cronológicos se assustam com o excesso de ruídos produzidos pela modernidade, tendo imensa dificuldade em encontrar um único lugar que seja para simplesmente pensar em meio ao absoluto silêncio.
Em qualquer lugar, como restaurantes, calçadas, shoppings ou escritórios, é impossível não absorver subjetivamente os barulhos produzidos. Ao final de um único dia, eles produzem estresse, cansaço e irritabilidade, tudo quanto possa abreviar a sanidade de uma pessoa.
Mesmo por aqui, em meio a uma natureza ainda original, é possível ouvir em forma de eco os sons vindos de distâncias consideráveis. Eles interferem no que deveria ser próximo, como aqueles sons que ficaram registrados no videotape de gente como eu e você que, por distingui-los, se protege o quanto pode.
Concluo neste amanhecer, já repleto de barulhos subjetivos, que estes ruídos determinam as perspectivas individuais, sentimentos e crenças, em vez de fatos concretos e imparciais. Resta uma visão particular do eu que varia de pessoa para pessoa, influenciando como o mundo é percebido, sentido e avaliado.
Pelo barulho da carruagem sistêmica, a coisa está feia aqui ou em qualquer lugar deste mundo de meu Deus. Restam-me os velhos tampões de ouvidos como amparo amenizador, ou um fone condutor do som de Schubert ou Chopin. Que eles abafem, nem que seja um pouco, o arsenal destrutivo dos bombardeios humanos, cada vez mais aniquiladores do esquecido equilíbrio, hoje, mais que necessário.
Regina Carvalho – 17.4.2026 – Pedras Grandes, SC
Ilustração-IA

Nenhum comentário:
Postar um comentário