domingo, 19 de abril de 2026

O GALO CANTOU...

Neste amanhecer que, sem pressa, ainda não surgiu no horizonte, eu e o galo recém-chegado à vizinhança esperamos, cada qual à sua maneira. Eu escrevo e ele canta, ambos na esperança de ver os primeiros raios de sol.

Esta é a primeira vez que o ouço e isso é simplesmente incrível. Desde que cheguei por estas bandas, pássaros e galos se mantiveram calados; apenas o gado do vizinho e os cachorros da redondeza serviam de consolo à minha solidão e saudades do cenário diferente da minha amada Itaparica, onde os pássaros faziam questão de ser meus despertadores matinais. Eles permaneciam comigo por todo o dia, atraindo minha atenção com cantos e travessuras. Não se contentando com o imenso quintal, vez ou outra invadiam a casa em voos rasantes que me encantavam e inspiravam.


O bendito e arruaceiro sabiá chegou a fazer sujeira em mim para marcar território em minha própria casa. Pode uma coisa dessas? Foi um momento que senti como sublime e que eternizei em uma crônica repleta de emoção.

Agora, enquanto registro a chegada do galo, lamento a ausência das vaquinhas de outrora. Elas foram trocadas por outras que, confesso, achei menos bonitas e, por enquanto, arredias, já que nenhuma se aproximou da cerca para me oferecer um bom dia.

Pensando nesta rotina sulista que desfruto nos últimos meses, lembro-me do escritor russo Leon Tolstói e de uma citação que lhe é atribuída: "Há quem passe por um bosque e só veja lenha para a fogueira". Talvez a frase ecoe o espírito de seu livro "A Morte de Ivan Ilyich", uma crítica à vida superficial e materialista, que alerta como a busca cega pelo sucesso pode levar a uma existência vazia. A obra mostra que a consciência da morte é um elemento transformador, forçando-me a repensar escolhas e valores.

Essa reflexão sempre me instigou a ver além da utilidade prática das coisas, apreciando a beleza e o valor intrínseco de tudo o que existe, trazendo para mim, uma harmoniosas paz entre eu e o infinito das diferenças.  E aí, como duvidar desse pensador que enriqueceu a humanidade e a minha própria juventude com obras como "Guerra e Paz" e "Anna Karenina".

Aliás, meu Roberto era mestre em me oferecer leituras assim. Ele me apresentou a Pablo Neruda, Drummond e Rilke, entre tantos outros gigantes, esquecendo-se de que eu tinha apenas 16/ 17 anos. Por isso, esperar normalidade de mim seria impensável!

Desvio o olhar entre o teclado e o horizonte, acompanhando a lentidão deste amanhecer nublado. O relógio na tela marca sete horas. Penso que, neste domingo, a preguiça do sol está se superando, assim como a minha ansiedade em vê-lo surgir através da porta envidraçada. Quero expressar, com um largo sorriso, minha gratidão por estar aqui e agora, ainda existindo.

Comparo o nascer de um novo dia com o leite que coloco para ferver: basta um segundo de distração e ele transborda. Isso me obriga a correr, seja para desligar o fogo ou para sorver um aprendizado sobre a atenção e a disciplina que devo ter com a vida. Afinal, quando ambos derramam, transformo em um delicioso "pingado" de oportunidades, do qual me viciei em degustar.

Simples assim.

Regina Carvalho- 19.4.2026 Pedras Grandes SC

Ilustração- IA

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