Apesar de encontrar beleza e vigor onde a maioria sequer reconhece existir, tão envolvidos que estão consigo, seus desejos e frustrações, cá estou, atendendo à minha necessidade maior que é a de deixar fluir.
Minha sempre lamentável constatação do quanto, eu e você, lindos e completos e a meu ver, obra-prima de Deus, maculamos o nosso todo de criaturas humanas simplesmente não extraindo e usufruindo de todo esse arsenal de potencialidades, a fim de, individualmente, criarmos e nos deleitarmos com este mundo pra lá de espetacular.
Falta-me o sono, dói-me o corpo, o que me leva de tempo em tempo a constatar que estou sobrando em meio a uma humanidade que se diz antenada, evoluída, estudada e um tudo mais que as aparências podem ostentar e, ao mesmo tempo, tão infeliz, numa constante busca que sequer sabem exatamente do que se trata.
Para gente como eu, cuja sensibilidade mais se aflora a cada dia, não é fácil. Afinal, como diz o ditado popular, quando me apresentam a farinha, o pirão já está pronto. Em épocas distantes, quando percebi esse lado não confessado, mas que para mim era de uma nitidez absurda, pensei estar enlouquecendo e, talvez, estivesse.
Não foi uma tarefa fácil manter-me neutra, sem maiores reações a todas as dicotomias que constatava entre o falado e o pensado. Ainda hoje, em muitas ocasiões, não sei como me comportar, afinal, há sempre da parte do outro reações abruptas que confesso sempre temi, até porque jamais soube como participar de qualquer embate onde a violência, de qualquer natureza, substituísse o bom senso e a lógica.
Então, como proteção, refugio-me no bendito silêncio e na sábia concordância, porque em nada me interessa ter razão nisto ou naquilo, já que nas raras vezes em que segui argumentando, fracassei enormemente. Não por falta do entendimento por parte do outro, mas porque calar-se admitindo a meu favor seria mostrar uma fraqueza que simplesmente é inadmissível para os descolados.
Penso que, diante do meu silêncio, inevitavelmente textos brotam desta minha mente inconformada pelo fracasso de inúmeras possibilidades de crescimento mútuo, onde a vaidade e o medo de ser o que realmente se é ocupam a razão e uma possível visão mais ampla do que é ser autêntico.
E aí a mídia se encarrega de estampar dia e noite, cada vez de forma mais explícita, os horrores cotidianos daqui ou deste mundo, geograficamente lindo, rico e produtivo, abrigando pessoas que se proliferam como coelhos num mundo selvagem e cruel, subdividido em searas culturais através de pessoas que desde sempre aprenderam a aperfeiçoar isto ou aquilo, menos a si mesmas e à bendita convivência que torna tudo possível.
Não dormi, é certo, mas como escrevo disciplinadamente, sinto-me restaurada. Se não do natural cansaço, pelo menos da dolorosa decepção de ver toda esta beleza existencial ir se perdendo entre a vaidade, o medo e a ignorância em apenas reconhecer que mudanças começam através de cada um que seja capaz de dizer não à sua própria inadequação, seja lá do que for e, simplesmente, mesmo em meio ao caos que o rodeia, enxergar beleza no simples e incontestável fato concreto de que a vida é bonita e é bonita e que, tal como ela, cada um de nós também o é.
Sei que choco as pessoas ao afirmar, através da minha inexistente modéstia, que me vejo e me sinto linda. Por que não? Acontece que eu sou, tal qual você que me lê. O que nos difere é que eu tenho coragem em admitir que não dependi de absolutamente nada além de mim mesma para ser e me sentir a última bolacha do pacote. Simples assim.
Posso até sentir que já não pertenço a este mundo, mas e daí, se o que sempre quis e ainda quero é ser feliz? E você, não?
Regina Carvalho- 25.4.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração: IA

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