quarta-feira, 29 de abril de 2026

SALVA PELO MEDO...

O frio é tanto que até o notebook está se recusando a funcionar como sempre faz, atendendo à sempre enorme demanda que lhe imponho. Minhas mãos e todo o meu corpo estão gelados, mas insisto, afinal já passa das oito horas e não consegui formatar absolutamente nenhum pensamento. E, meu Deus, são tantos!
Nem o frio ou o calor extremos impedem minha mente de, a cada amanhecer, correr a mil por hora e atropelar esta senhora que, apesar de superanimada e de se esquecer da idade que tem, às vezes derrapa nas inerentes limitações.


Ontem, passei o dia saracoteando por Tubarão e redondezas com minha filha. Foi tentador, mas desta vez não nos perdemos em distrações, envolvidas que estávamos em escolher itens bacanas para o netinho que em breve estará chegando. Foi simplesmente maravilhoso, ainda mais quando, na volta para casa, ela mudou o trajeto e eu pude conhecer um bairro em meio a lindas colinas que serpenteavam o rio da cidade. O caminho exibia chácaras, sítios e um bucólico hotel, além de algumas propriedades com vaquinhas que, cá para nós, serão sempre uma das minhas paixões.
Enquanto meus olhos percorriam, sob total encanto, as pradarias e belezas incríveis que se descortinavam diante deles, minha mente voava entre lembranças e alguns desejos nunca realizados. Encontrei, em meio a esses pensamentos, um freio instintivo que hoje entendo tratar-se de um medo racional. Um medo por saber-me incapaz de tirar os meus pés do chão, preservando incólume a dignidade pessoal e não permitindo jamais que a mesma, através de minhas ações e reações, fosse sequer arranhada.
Penso que, para uma jovenzinha arisca, curiosa e irreverente, ainda mais nos anos sessenta, onde tudo virava de pernas para o ar nos comportamentos (assim como hoje, com a notória dispersão de hábitos e costumes sociais), ter um grau tão elevado de determinação leva-me a questionar o que verdadeiramente pautou esse amadurecimento. A juventude carrega em si uma sede de liberdade que, muitas vezes, ignora a necessidade de contornos. Acreditamos que ser livre é dizer sim a tudo que nos desafia, sem perceber que a falta de limites pode nos tornar escravos de escolhas impensadas. No meu caso, o medo não foi uma prisão, mas o guardião da minha autonomia. Ser livre não era mergulhar sem fôlego em qualquer abismo; era ter a soberania de decidir quais mundos eu queria e quais eu não devia desbravar.
Imagino que não havia amadurecimento, apenas medo. Algumas vezes irracional, mas, na sua totalidade, lúcido o bastante para me livrar de poucas e boas esparrelas que via acontecer à minha volta. Eu definitivamente não me enxergava sobrevivendo a elas, já que de uma coisa eu tinha certeza: eu precisava ser respeitada, até mesmo se errasse.
Daí vem o fato de jamais ter experimentado qualquer droga ilícita, o que já era bastante comum nas redações dos jornais por onde trabalhei, ou de não beber nas infindáveis festas que o meu trabalho exigia. Aprendi a surfar incansavelmente por entre as propostas de ricos empresários e políticos, dispostos a oferecer para a moreninha de pele macia o paraíso na terra. Confesso que não foi fácil, pois as tentações são avassaladoras. Ainda mais para mim que, na época, comia o pão que o diabo amassava, num casamento à beira do abismo, longe de minha cidade e familiares, querendo abraçar o mundo novo que se exibia para mim.
Na realidade nua e crua, fui salva pelo medo e pelas orientações de meu pai. Curto e sem floreios, ele me expunha o mundo sob a ótica de um homem vivido, que temia que sua única princesinha caísse nas conversas fiadas como ele próprio já havia caído. Graças a ele e ao medo, cheguei até aqui, com a alma ainda com asas fortes para voar e com os meus dois pezinhos pisando firmes o solo das muitas caminhadas, tropeços e quedas retumbantes. Dessas quedas, sempre levantei mais forte, já que, embora fincada com raízes profundas, jamais permaneci no chão.
Que coisa, viu!!!
Regina Carvalho — 28.04.2026 — Pedras Grandes/SC
Ilustração IA



 

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