Quem convive comigo ou há muito me lê, sabe o quanto sou observadora. Preocupo-me em destacar tudo o que me parece relevante em qualquer situação na qual estou inserida, sem fazer desses destaques degraus de acesso a qualquer lugar. Nem sempre essa minha forma de ser, agradou. Em certas ocasiões, minha ingenuidade e espírito participativo falaram mais alto que meu senso de oportunidade, o que me rendeu desafetos. Afinal, eu me preocupava com as ações e reações externas e esquecia de observar as reais intenções de quem estava na berlinda, expondo-se.
Ainda me lembro, até porque dói até hoje, de quando observei as posturas físicas daqueles que escutavam um certo político discursar. Cometi o erro primário de comentar com ele o efeito desastroso de suas palavras. Enquanto me fuzilava com os olhos, ele desferiu o golpe de misericórdia com um desprezo cortante, que partiu o meu tesão pela política e, com ela, a esperançosa certeza de estar ao lado de uma joia rara. Ele disse: "O que seria de mim se não fosse você?", em uma cruel e debochada ironia à minha insignificância diante da vaidade de seu sucesso.
Calei-me. Mas o tempo e o povo daquela localidade responderam por mim. Ele se fez enterrar; afinal, vinte anos se passaram e, nem por decreto de lei, ele ou seus aliados tiveram apoio maciço para se eleger, já que sua arrogância e prepotência, absolutamente desnecessárias, jamais foram esquecidas.
Por que relato esse episódio nesta sexta-feira de um ano eleitoral? Provavelmente porque, em breve, as ruas e becos de minha adorada Itaparica ficarão fervilhantes de políticos, liderados por chefes de ocasião na defesa de seus minguados privilégios. Farão caminhadas para angariar votos dali e dacolá, de preferência nos finais de semana, quando suas agendas estão mais folgadas. É um filme que se repete sem novos roteiros, lembrando-me de produções antigas de Hollywood que assisti a vida inteira e que, cá para nós, já cansaram.
Já foi o tempo em que mãos vazias e peito estufado recolhiam votos. Basta olhar para o cenário que se descortina: meliantes engravatados nos governam, das câmaras de vereadores aos palácios do Executivo e do Judiciário. Fazem do luxo que ostentam cusparadas seguidas na dignidade do cidadão que, anestesiado, sequer percebe que os mantém no comando por alguns trocados.
Não existe dúvida do porquê as velhas raposas continuam comandando os bastidores de norte a sul do Brasil. Têm à frente filhos, netos e agregados, escoltados por jagunços travestidos de líderes comunitários, que fazem de suas bocas de fumo, quartéis de um exército de ataque e defesa. O povo, carente de programas sociais, aumenta a cada eleição. Vencê-los é missão quase impossível, pois ora sentem o medo da fome, ora dependem de trocados para os alucinógenos que garantem minutos de devaneio.
Penso que coronéis e meliantes se igualam, arrastando para o cesto das desgraças humanas a cega justiça, há muito corrompida, que se tornou surda e, tragicamente, muda. Aproveito para responder aos que me perguntaram: "De que te valeram tantas observações, se jamais passaste de uma mequetrefe sem eira nem beira?".
A todos, respondo: não me amolem. Deixem-me escrever o que me amofina e escoar as minhas dores em relação ao meu país. O resto do mundo eu deixo para quem o usa como referência, acreditando que a fedentina da qual se perfuma é chique apenas por ser importada.
Regina Carvalho- 24.4.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração- IA

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