Essa certeza foi se cristalizando em cada instante da minha vida em que, atenta, observei tudo o que me cercava, podendo enxergar ou apenas sentir.
Essa bendita constatação não chegou fácil, nem caiu de repente do céu, como se costuma dizer. Foi conquistada ao longo de uma vida em que o simples e o corriqueiro jamais passaram despercebidos.
Neste amanhecer, ao pesquisar sobre o conceito da Quinta-feira Santa e do Espírito Santo no cristianismo, pude compreender o simbolismo das posturas do Mestre Jesus, que utilizava exemplos pessoais, suas próprias ações e metáforas para que todos, sem exceção, pudessem, aceitando ou não, entender suas mensagens.
Além disso, ao longo de sua incrível caminhada, escolheu e também foi escolhido por aqueles que chamamos de discípulos, mas que, na essência, eram agregados que, como eu, despertaram das inércias pessoais, oriundas de uma ignorância existencial. Assim, passaram a absorver os reais valores que a vida generosa e incansável oferecia, como estimuladora e também como guia dos caminhos mentais e espirituais, conduzindo a um desfrute mais completo do tudo de bom.
Jesus, como todo mestre dedicado, compartilhava seus entendimentos, esperando que seus aprendizes, abastecidos de novas visões, também o fizessem. Assim, a vida fabulosa que ele descortinou para si poderia também ser acessível aos demais, num ciclo ininterrupto de vida e liberdade, já que uma está umbilicalmente ligada à outra.
Também pude, enfim, compreender por que coisas, títulos e valores monetários jamais me impressionaram. O que sempre permaneceu foram as vibrações oriundas do outro, com o poder de me atrair ou não.
Fascinante foi constatar que, ainda na infância, recebi instruções sobre a natural seleção das minhas mais legítimas afinidades, por meio dos meus sentidos em comunhão com a minha mente. Reconheci-me, então, como expressão da criação divina, capaz de absorver e guardar o que há de bom, numa seleção favorável ao meu próprio bem-estar que, mesmo não agradando a todos, também não lhes causaria mal.
Isso foi determinante para despertar em mim uma paixão contínua pela vida em suas infinitas expressões, resumida, tão somente, naquilo com que me sinto ou não em afinidade.
Hoje, nesta Quinta-feira Santa, entendi por que somente o amor que pude sentir e, por consequência, doar, verdadeiramente me importava. Justamente por ser fruto de um exercício contínuo da liberdade de escolha consciente das afinidades, que, retornando ou não no mesmo nível amoroso, sempre me abasteceram e me completaram.
Assim, não havendo, em momento algum, ressentimento ou mágoa por não ser amada por esta ou aquela pessoa a quem direcionei meu amor, pois, mesmo que inconscientemente, meu ser compreendia que eu havia escolhido amar. Portanto, não cabia cobranças, apenas uma profunda gratidão pelo sentimento despertado em mim.
Falando assim, pode parecer simples ou apenas uma teoria filosófica. Na realidade, é uma das tarefas mais complexas do ser humano. No entanto, também é a que mais garante uma vivência plena, pois a percepção do que há de melhor, armazenado na mente e no espírito, se mantém como fiel companhia em cada instante da vida, atraindo a paz tão sonhada e proclamada, mas tantas vezes difícil de alcançar.
Estar na companhia da paz não elimina os problemas nem as perdas, mas, com certeza, impede que nos contaminem ou nos aniquilem. Muito pelo contrário: fortalece nossa resiliência e nos dá clareza quanto aos nossos “sins” e “nãos”.
Regina Carvalho — 02/04/2026 Pedras Grandes SC
Ilustração IA

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