Acabo de receber a visita de meu filho Luiz Claudio que ao ir para o trabalho, deu uma paradinha para me trazer um pãozindo bem quentinho que imediatamente comi, deixando a manteiga se derreter em seu interior e até escorrer e sujar os cantos de minha boca. Isso é dupla felicidade e exemplifica o texto que escrevi antes do dia clarear.
Pensando a respeito e no quanto banalizamos instantes que são perfeitos adubos para nos sentirmos plenos e felizes, selecionei trechos de um livro clássico que já perdi as contas de quantas vezes já o reli e que creio ser adequado para esta manhã friorenta, onde certamente muitos dos meus leitores devem estar precisando de uma forcinha a fim de descobrir aqueles detalhes comuns que fazem toda a diferença no tocante ao bem estar íntimo.
O Banquete que foi escrito pelo filósofo grego Platão e é uma escolha maravilhosa e um dos textos mais bonitos e célebres de toda a história da literatura e da filosofia.
Nessa obra, um grupo de amigos intelectuais se reúne em um jantar (um banquete) e decide que cada um deve fazer um discurso em homenagem ao Amor (Eros). É desse livro que nascem conceitos famosos como o "amor platônico" e a idéia de que buscamos no outro a nossa "metade da laranja".
Como é uma obra clássica, o texto completo está em domínio público e pode ser lido de graça. Para facilitar o seu momento de reflexão, preparei um resumo dos pontos mais bonitos.
Os Discursos Mais Marcantes sobre o Amor
O Mito das Metades (Discurso de Aristófanes): Ele conta uma história linda de que, no início, os seres humanos eram duplos e esféricos, com quatro braços e quatro pernas. Os deuses, com medo do nosso poder, nos partiram ao meio. Desde então, passamos a vida buscando a nossa "outra metade" para nos sentirmos inteiros novamente.
O Amor como Busca da Beleza (Discurso de Sócrates): Sócrates conta o que aprendeu com uma mulher sábia chamada Diotima. Ela explica que o amor não é apenas desejar outra pessoa, mas sim um caminho que nos eleva. Começamos amando um corpo bonito, depois passamos a amar a beleza das almas, das artes e, por fim, a própria
O Discurso de Fedro: O Amor como Fonte de Coragem
Fedro é o primeiro a falar. Para ele, o Amor (Eros) é o deus mais antigo e aquele que desperta o que há de melhor e mais nobre dentro de nós.
O amor nos dá uma coragem que nós não sabíamos que tínhamos. Uma pessoa apaixonada tem mais vergonha de agir mal e sente um desejo profundo de ser alguém melhor e mais virtuoso.
"Ninguém é tão covarde que o Amor não possa inspirar-lhe um entusiasmo que o torne igual aos mais corajosos por natureza."
Fedro diz que o amor transforma as pessoas. Por quem amamos, somos capazes de enfrentar os maiores perigos, vencer os medos e praticar sacrifícios que nunca faríamos por nós mesmos.
O Discurso de Pausânias: O Amor Gêmeo (O Corpo vs. A Alma)
Pausânias traz uma ideia muito interessante: ele diz que existem, na verdade, dois tipos de amor no mundo, e que precisamos aprender a diferenciá-los.
O Amor Vulgar (Terreno): É o amor que só se importa com a beleza física e com o corpo. Pausânias diz que esse amor passa rápido, pois quando a beleza do corpo envelhece, o amor também "levanta voo e desaparece".
O Amor Celestial (Nobre): É o amor direcionado à alma, à inteligência e ao caráter da outra pessoa. Esse amor é duradouro e melhora com o tempo.
"O amante cujo amor se dirige ao caráter permanece fiel por toda a vida, pois fundiu-se com algo que é estável."
Ele defende que o amor de verdade não envelhece. Quando nos apaixonamos pelo coração, pela bondade e pela mente de alguém, esse laço dura para sempre, porque a beleza da alma não desbota com a idade.
O Discurso de Erixímaco: O Amor como Harmonia e Saúde
Ele era médico e expande a ideia do amor para além das pessoas: para ele, o Amor é uma força da natureza que busca o equilíbrio e a cura.
O amor é a força que une os opostos (o frio e o quente, o seco e o úmido). Na medicina, a saúde é o amor harmônico entre os elementos do corpo. Na música, é a harmonia entre notas graves e agudas.
"A medicina é o conhecimento dos princípios de amor que operam no corpo. Aquele que sabe distinguir o amor belo do amor doentio é o médico perfeito."
Ele mostra que amar é saber conciliar as diferenças para criar paz e saúde, seja no corpo humano, na música ou nos relacionamentos.
O Discurso de Aristófanes: O Mito das Metades (A "Metade da Laranja")
Aristófanes é um poeta cômico e traz a história mais famosa e emocionante do livro para explicar por que sentimos solidão.
No início dos tempos, os seres humanos eram duplos e esféricos, com quatro braços, quatro pernas e duas cabeças. Éramos tão fortes que desafiamos os deuses. Zeus, para nos enfraquecer, cortou-nos ao meio. Desde então, cada metade caminha pelo mundo procurando a outra para se sentir inteira novamente.
"Quando um homem encontra a sua metade verdadeira, algo extraordinário acontece: ambos são tomados por uma imensa afeição, por uma intimidade e por um amor que não os deixa se separar nem por um instante."
O amor, para ele, é o desejo profundo de cura. Procuramos no outro aquilo que nos falta para voltarmos à nossa natureza original de completude e paz.
O Discurso de Agatão: O Amor como Beleza e Juventude
Agatão é o anfitrião da festa e um jovem poeta. Ele resolve elogiar o próprio deus Amor (Eros) em vez de focar nos efeitos que ele causa nas pessoas. O Amor é o mais belo, o mais jovem e o mais delicado dos deuses. Ele não caminha sobre a terra dura, mas sim nos corações e nas almas das pessoas bem-humoradas e suaves. Onde há grosseria ou violência, o Amor não entra.
"O Amor habita os corações macios e as almas suaves; e se encontra uma mente rígida, ele se afasta, mas se encontra uma alma terna, ali ele faz sua morada."
Agatão defende que o amor traz paz, poesia e delicadeza para o mundo. Ele transforma a rigidez da vida em algo leve e florido
O Discurso de Sócrates: O Amor como Escada para a Sabedoria
Sócrates é o filósofo principal. Ele diz que não inventou nada, mas repete o que aprendeu com uma mulher muito sábia chamada Diotima.
O Amor não é um deus perfeito, mas sim um "filho da Pobreza e da Riqueza". Ele nasceu na miséria, por isso está sempre descalço e faminto, mas herdou o desejo pelo que é belo e bom. O amor é uma escada: começamos amando a beleza de um corpo, subimos para amar a beleza das almas, depois a beleza das leis e das ciências, até chegarmos ao topo, que é o amor à própria Verdade e Sabedoria.
"Contemplar a beleza pura, simples e sem misturas... é nessa vida que o ser humano realmente encontra o valor de viver."
Sócrates mostra que o amor verdadeiro não nos prende a uma pessoa só, mas nos impulsiona a crescer, a aprender e a criar coisas lindas que duram para sempre (como livros, ideias e boa ações)
O Discurso de Alcibíades: O Amor na Prática (O Elogio a Sócrates)
Alcibíades chega atrasado, um pouco alterado pelo vinho, e quebra o clima teórico. Em vez de falar do Amor abstrato, ele faz uma declaração de amor ao próprio Sócrates.
Ele compara Sócrates àquelas estátuas gregas antigas que eram feias e rústicas por fora, mas que, quando abertas, revelavam imagens de ouro de deuses lindos em seu interior.
"Quando escuto suas palavras, meu coração bate muito mais forte... e vejo que a vida que levo não vale a pena se eu não buscar ser uma pessoa melhor."
Ele encerra o livro mostrando que o amor real é aquele que nos confronta e nos transforma por dentro. Amar alguém sábio e bom nos faz olhar para os nossos próprios defeitos e desejar evoluir.
Espero que essa leitura traga momentos de muita paz, reflexão e distração em seus instantes de descanso.
E se quiser e puder que tal me dizer qual foi o seu discurso favorito?
Pesquisa -Regina Carvalho- 3.6.2026 Pedras Grandes SC

Nenhum comentário:
Postar um comentário