Em seu romance Esaú e Jacó, Machado de Assis oferece a sua visão sobre o ditado popular que afirma que "A ocasião faz o ladrão". Eu concordo com ele, afinal, a ocasião apenas cria o furto, pois o ladrão já nasce feito, já que o caráter e a essência independem da oportunidade.
Acordei pensando que já faz décadas que li essa obra e que ela fez absoluto sentido, até porque meu pai, que foi o homem mais ético que conheci, na época também concordava com o autor. Penso, então, no quanto foi importante o exemplo de meu pai na minha formação como pessoa.
Confesso agora para você que me lê: o fato também real é que possa haver a tentação, mas daí a se concretizar o indevido são outros quinhentos mil-réis.
Penso que a vida cotidiana me testou inúmeras vezes. Em todas eu me encontrava fragilizada e, em algumas ocasiões, se não em todas, uma pontinha de mim quis ceder. Mas o outro tanto sempre foi resistente o suficiente para me impedir.
Isso reforçava a minha certeza de que tanto o escritor como meu pai, apesar de serem, à primeira vista, pessoas fora do comum em suas irreverências, mantiveram intactas as suas convicções. Não porque eram santinhos, mas porque eram decentes.
Portanto, analisando os rumos possíveis de serem identificados, e até mesmo justificados e copiados por um expressivo número de pessoas, principalmente as públicas, por estarem mais visíveis, chego à dolorosa conclusão de que a falta de honradez tem se tornado algo mais que genético ou, no mínimo, contagioso. Discordo em parte do ilustre escritor, pois afirmo sem titubear que a essência pode ser aliciada se, desde a mais tenra idade, a criança conviver com a desfaçatez e o engodo, aliados à hipocrisia.
Ser coerente com a sua essência é duplamente difícil. Além de se ter que vencer a forte corrente das tentações em relação às sempre crescentes e fascinantes ofertas, ainda se tem que enfrentar o mar agitado com suas ondas perigosas que tentam e, às vezes, conseguem afogar o abusado resistente. Afirmo isso com conhecimento de causa.
Vemos isso ocorrer todos os dias: aviões e helicópteros que explodem no ar, desastres automobilísticos que oportunamente acontecem e outros acontecimentos de aparente menor valor destrutivo, mas que impedem talentos de se firmarem. Afinal, "Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas".
Esse ditado é utilizado para lembrar a necessidade de ser extremamente cauteloso e estar preparado para proteger seus pontos fracos ao lidar com situações de risco, competição ou convivendo com pessoas hostis.
A marginalização de todo aquele que não entra no jogo de qualquer tipo de falcatrua imediatamente entra em ação e, como machado afiado, corta-lhe as pernas para dificultar ou mesmo destruir a sua existência, seja lá onde for.
Essa minha análise e consequente conclusão, tal qual certamente foi a de Machado de Assis, não se limita aos bens materiais, mas a tudo quanto a presença da ética se torna imperativa, na convivência da falta da moral necessária a qualquer condução existencial.
Regina Carvalho - 20.6.2026 - Pedras Grandes - SC
Ilustração: IA
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