Decididamente, depois de ser bombardeada dias seguidos com os pareceres jurídicos e achismos desta ou daquela pessoa através dos órgãos de comunicação, cá estou, sendo mais uma que desconhece os meandros do processo.
Busco entender qual detalhe relevante pode ter existido para que uma juíza, em sã consciência humana e jurídica, tenha concedido o perdão a esta senhora.
Ela permaneceu passiva, cuidando tão somente de seus próprios interesses por um longo período, enquanto seu parceiro, de forma lenta e sistemática, agredia física e emocionalmente seu filho.
A frase de impacto proferida pela meritíssima, ao conceder o perdão, afirma em sua sentença que o fato de ser mãe não torna uma mulher perfeita e incapaz de cometer erros.
De uma forma puramente humana de analisar, posso até concordar. Todavia, erros precisam ser corrigidos e a concessão de um perdão certamente dá a esta senhora uma forma inusitada de prêmio.
E aí, como sou mãe de dois filhos adultos e, na companhia deles, comi o pão que o diabo amassou em inúmeras situações, apesar de ser absolutamente humana e repleta de falhas na condução de minha maternidade, jamais pude conceber que meu marido ou quem quer que fosse machucasse de alguma forma qualquer um dos dois.
Essa postura pessoal não impediu que, pelas minhas costas, muitas daquelas pessoas que faziam parte da minha relação íntima, em sua maioria travestidas de pessoas boas e até devotas a Deus, em determinados momentos os discriminassem como forma covarde de se vingarem de mim e até mesmo de meu Roberto. Afinal, existem pessoas cruéis, invejosas ou simplesmente malignas. Todavia, como mãe, usando do natural instinto de preservação das crias, tão logo percebia qualquer desvio de conduta, imediatamente os defendia, afastando-os a qualquer custo.
Portanto, para mim, na condição de mulher, a questão não é ser uma mãe perfeita ou não, e sim ser guardiã amorosa de sua cria. Mas quem sou eu, não é mesmo, numa era onde gênero pessoal, valores monetários e vaidades exacerbadas determinam padrões comportamentais, derrubando valores morais e éticos e estabelecendo verdades construídas de adobe?
Creio na ignorância que reconheço em meus conhecimentos jurídicos, mas ouso afirmar que o único fato a se considerar é que uma criança foi morta por dois doentes psicóticos, produtos do lixo sistêmico. Eles estão vivos e ainda contando com uma justiça não menos afetada por desvios de conduta.
Esse precedente abre uma enorme fenda na mais sagrada das relações, por onde a indiferença, a irresponsabilidade e a vaidade desmedida exercerão o seu direito em abandonar e até matar, como no caso em questão.
Regina Carvalho8.6.2026, Pedras Grandes, SC.
Ilustração- IA

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