domingo, 7 de junho de 2026

PERUA, por que não?

Pois é, pensando bem a culpa é de minha mãe que se esmerava na confecção dos vestidos de cambraia de linho com aplicações de delicadas rendas e pontos de fino bordado que eu detestava, afinal, impedia-me de correr e ser apenas uma criança naturalmente levada e repleta de energias.

Esse travamento moldou a minha forma de ser e de me apresentar, já que incluía no figurino a postura da menina discreta e obediente, sufocando a afoita que morava em mim, que tudo o que gostaria era de poder bater as asas e rodopiar pelos quintais da vida.


Mas como, se as pernas travavam e ainda travam, as mãos gelavam e o coração, coitado, insistia em sair pela boca?

Pois é...O que ela se esqueceu de prever era que, sem sua presença, em algum momento eu arriscaria até mesmo pela força das circunstâncias, e foi exatamente o que aconteceu, forçando-me a encarar meus temores pessoais em me mostrar exatamente como sempre fui, sem a capa de menina comportada.

Jesus... Liberei geral dentro de mim, afinal, adorei apreciar e até gostar das minhas peruagens emocionais que aos poucos fui liberando para a estética abusada de me sentir cheirosa e encantadoramente autêntica, sem, no entanto, perder o foco da realidade, que confesso foi tão tatuado em mim que jamais consegui dela me desvencilhar.

Sou uma pobre esnobe que explora até a última gota a aparência de rica que, mesmo com os bolsos vazios, não abre mão da excelência seja lá do que for, força estranha que não me deixa esquecer das próprias limitações e muito menos da ousadia de ser e me sentir gostosíssima perante a vida que, generosa, perdoa os meus ousados pecados e me oferta, aqui ou acolá, um par de óculos Ray-Ban que completa o meu look, um Chanel n°5 que envolve a minha pele de sofisticação e aquele olhar brilhante de quem ama estar vivendo.

Acabei atravessando a vida selecionando cuidadosamente o melhor de qualquer situação, pinçando cuidadosamente pessoas e coisas, sentimentos e emoções e, com elas, criando uma peruagem absolutamente própria que registro incansavelmente, provavelmente para jamais esquecer que ser perua não é ser deslumbrada, tão somente, real.

Regina Carvalho-7.6.2026 Pedras Grandes SC

Ilustração- IA

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Pois é, pensando bem a culpa é de minha mãe que se esmerava na confecção dos vestidos de cambraia de linho com aplicações de delicadas renda...