Acordei nesta segunda-feira friorenta pensando na palavra extraordinária. Então, como sempre faço, busquei inteirar-me de forma mais ampla sobre o seu significado. Até porque, de uns bons tempos para cá, a influência maciça do apenas ordinário travestido de fantástico tem confundido as avaliações críticas dos pouco atentos.
Aliás, esse é um fator altamente preocupante a ser observado. As universidades, que deveriam ser redutos dos exercícios críticos, passaram a ser tão somente mecanismos de indução à nulidade avaliativa. Tornaram-se condutoras dos fluxos existentes a cada momento, além, é claro, dos rasteiros ensinamentos básicos dos conhecimentos gerais. Isso afeta de forma negativa e desastrosa todas as áreas da aplicação de seus parcos conhecimentos.
Busco na memória tentando lembrar exatamente quando os mequetrefes de qualquer área foram assumindo o protagonismo. Atraíndo para si as luzes do sucesso, sugando qualquer maior investimento e reconhecimento por seus feitos.
Para os extraordinários, quando muito, resta uma notinha aqui, uma entrevista ali, tudo muito estranhamente rápido.Desde quando foi se perdendo o valor dos valores a serem pagos a determinadas figuras? Vivemos uma supervalorização do apenas "mais ou menos" ou, em casos raros, talvez de alguém que se destaque neste ou naquele aspecto no exercício de seu trabalho.
Como estamos vivenciando a Copa do Mundo, faço dos jogadores exemplos mais que explícitos desta supervalorização que, em sua maioria, não corresponde ao apresentado. Indo mais além, incluo as artes musicais, teatrais, literárias e, o que é pior, a médica e a educacional.
Enquanto isso, nos gabinetes e laboratórios das universidades, acuados em sua esmagadora maioria e cada vez em quantidade mais minguada, lá estão os pensadores, cientistas e pesquisadores. Eles contam as moedas dos parcos investimentos recebidos, no que se incluem seus salários, e seguem sem qualquer amparo midiático de média duração. Afinal, quem deseja investir nos benditos túneis das evoluções de qualquer natureza, onde o brilho dos holofotes não está direcionado?
Daí conclui-se que não é a troco de nada que o Brasil mantém a triste realidade de cerca de 29,5% das residências (aproximadamente 22,7 milhões de domicílios, de um total de 77 milhões) sem possuir ligação de esgoto sanitário. Isso significa que quase três em cada dez lares brasileiros ainda dependem de fossas ou despejam seus resíduos de maneira inadequada.
Penso nos grandes e poderosos laboratórios, fabricantes de automóveis e variados varejos que disputam entre si o domínio de cada cidade. Penso em muitos outros que despejam milhões diariamente em propagandas, mas que sequer destinam uma fatia de seus quinhões aos meritórios mantenedores do progresso. Se o fazem, não os incluem em suas propagandas, como se o real conhecimento e talento não fossem de utilidade pública no incentivo ao elevado domínio da melhoria intelectual das gerações que se sucedem, a qual notoriamente está cada vez mais medíocre.
Esse comportamento corrosivo se estende a todas as áreas do convívio humano, traçando um perfil perverso. Ele induz cada ser humano a perder a noção da lógica em relação a qualquer coisa com a qual se relaciona. Isso ocorre inclusive de forma dolorosa e cruel quanto ao sentido de discernimento em relação ao certo e ao errado, já que o sentido universal de bem comum limita-se única e exclusivamente aos interesses de si mesmo.
Portanto, se os políticos roubam, se os parlamentares com raras exceções são inoperantes, e se a miséria da fome e da decência moral se intensifica, tudo bem?
Se o mundo está em guerra, a começar pela calçada de qualquer rua, se as riquezas territoriais se perdem através dos inescrupulosos, se a violência dorme e acorda nas camas de quem diz que ama, e se as famílias se diversificam na mesma proporção que se desmantelam, tudo bem? Afinal, acreditam que isso faz parte do processo progressista.
Fazer o quê, se a vida é assim? depois, se os famosos e descolados apresentadores televisivos e os infinitos influenciadores online promovem tudo sob a chancela de grandes marcas, a errada deve ser eu, que amanheço, nos últimos cinquenta anos, tentando entender que merda crescente e abrangente é essa que estamos vivenciando. Uma realidade que nos faz acreditar que a morte e o soterramento de valores e da qualidade de um passado, que deveria servir de modelo e ponto de partida ao aperfeiçoamento, seja considerado tão somente obsoleto.
Regina Carvalho-15.6.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração-IA

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