Voltei a dormir extremamente cedo e a acordar da mesma forma. A consequência é ficar em total falta de sintonia com todo o resto, o que me é desagradável, já que gosto de interagir.
Este é um problema a ser resolvido. Outra alteração que vem se acentuando é a vontade irresistível de fazer tudo o que antes tinha o cuidado de evitar, com uma desculpa cognitiva de teor mais que convincente: será que estarei viva amanhã?
Então vou aonde jamais me atrevi a ir, como comer o que sei que vai me engordar. Nunca mais bebi minha vodca, só para não correr o risco de morrer bêbada e não lembrar o caminho que devo seguir. Tenho também o vício de estar sempre limpinha e cheirosa para, se precisar ser levada a um hospital e estar adequada para médicos e enfermeiras.
Que paranoia é essa?
Sei lá. O que sei é que, à medida que fui envelhecendo, fui aderindo a mais manias deste tipo. O pior é que só percebo quando, como neste instante, sinto frio e penso que poderia estar debaixo das cobertas. Ou quando, enquanto estou comendo o indevido por puro olho grande, como ocorreu ontem na companhia de minha Anna que, tal como eu, tem suas manias escalafobéticas, lembro que estou engordando ou gastando mais do que deveria ou poderia.
Todavia, o remorso dura pouco. Fazer o quê, se minha realidade cronológica rompeu de vez as minhas limitações estéticas e financeiras? Aí penso: de que adiantaria renunciar a isto e aquilo se, de um instante para o outro, eu passar desta para melhor?
Quanto ao melhor, tenho minhas dúvidas, já que ninguém que me fosse confiável voltou para me contar como realmente são as coisas por lá. Então, em meio aos mistérios e às muitas especulações nem sempre confiáveis, agarro-me aos prazeres terrenos que, por segundos, levam-me ao único paraíso que verdadeiramente sou capaz de conhecer, sentir e me regalar.
Rapaz, que ninguém me ouça, mas a contravenção do adequado é sempre muito tentadora. Ainda mais quando se tem a absoluta noção da importância do instante presente, da sua vulnerabilidade, e por ainda ser uma criaturinha abusada e irreverente.
Pois é, escrevendo estas realidades pessoais, não faço em absoluto apologia aos excessos. Apenas mostro a Regininha que sou que, apesar de cometer este ou aquele deslize referente à gula e à vaidade, jamais rompi as barreiras da ética e da decência. Como, por exemplo, deixar um ser humano passando fome próximo a mim, assim como jamais aceitei ser cúmplice de qualquer ladrão dos cofres públicos por uns trocados a mais.
Bem, méritos por isso nunca busquei, assim como jamais carreguei na sola dos pés o piche da vergonha e do mau-caratismo, ciente de que, mesmo calçados com sapatos de ouro, eles deixam suas marcas indeléveis. Então, fui me acostumando ao obscurantismo e, nele, ser feliz sempre foi o meu consolo.
Simples assim.
Pelos agrados e brindes que recebo como bênçãos, justo por pessoas que nada me devem e muito menos têm obrigações para comigo e os meus, prefiro acreditar que é o bendito Deus demonstrando o seu perdão às minhas extravagâncias cotidianas.
Dedico este texto à amiga Cida Paglarin pelos brindes amorosos que enviou a mim e à minha Anna Paula no dia de ontem, rogando ao meu Jesus que zele por ela e os seus.
Regina Carvalho. 17.6.2026, Pedras Grandes.
Ilustração -IA

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