sábado, 21 de março de 2026

TUDO É ESPECIAL

A neblina lentamente se desfaz, deixando as cores surgirem diante de meus olhos que, fascinados, se deixam penetrar por toda essa forma natural que, mesmo sendo velha conhecida, faz questão de se remodelar a cada amanhecer.

Exibe-se serenamente e me leva a pensar que esta foi, sem dúvida, a maior lição apreendida em minha infância. Tão poderosa que me impulsiona até hoje, a fim de não me deixar esquecer que sempre fui e serei a Regininha, conscientemente pronta a transmutar-me em novos conhecimentos, sem macular minha originalidade.


Sigo na busca constante, enquanto criatura humana, de novas vestimentas de uma evolução singela, pessoal e natural, fiel aos meus instintos, capazes de orientar-me ao que me convém, ainda que não seja o mesmo que convém ao outro. Assim, nasce o limite e, com ele, o respeito.

E tudo bem.

Em um único amanhecer, que varia em sua apresentação conforme a cidade ou o país, em qualquer continente, é possível constatar a diversidade da vida. E, portanto, também somos diversos.

O que nos diferencia de todo o restante não é essa diversidade, mas a nossa tendência à autodescaracterização, na tentativa de nos adequarmos superficialmente ao grupo ao qual pertencemos. Soterramos, assim, nossos gostos e necessidades, enquanto todo o restante da natureza se adapta, mas não se descaracteriza.

 seguimos nos tornando cópias...

Por que insistimos em nos estereotipar?

Seria tão valioso se as crianças fossem orientadas a perceber que, para conviver em grupo de forma rica e saudável, não é necessário deixar de ser quem se é. Quando isso acontece, soterram-se suas necessidades reais, abrindo vazios interiores muitas vezes devastadores.

Penso, neste instante, que a racionalidade pode atrapalhar e até destruir, se não for devidamente explicada, valorizada e direcionada a um uso realmente consciente, sendo ela a mais poderosa função do ser humano.

Como afirmou René Descartes, “penso, logo existo”. Ao duvidar, o indivíduo percebe que pensa, e esse ato comprova sua existência como consciência.

No entanto, ensinamos a criança a usar o corpo, mas pouco estimulamos sua mente a compreender o mundo que percebe. Ela aprende a executar, mas não necessariamente a entender.

Assim, vai sendo conduzida por padrões repetidos, muitas vezes moldados por uma lógica de cópia, e não de compreensão. O que não é compreendido torna-se ignorado e, portanto, sem valor.

Introduzimos conceitos de bem e mal, bonito e feio, certo e errado, baseados em contextos culturais, sociais, políticos e religiosos, sem oferecer espaço para que a criança desenvolva seu próprio entendimento.

Tatua-se nela uma visão que pode nem ser sua.

E, sem caminhos para compreender a si mesma, resta-lhe apenas adequar-se, muitas vezes em silêncio e com violência interna.

As convivências passam, então, a se chocar em conflitos desnecessários, muitas vezes já dentro do núcleo familiar. E, considerando a diversidade da vida e das visões humanas, não surpreende o grau de violência que se instalou e que cresce em ritmo acelerado.

Escrevo com a consciência de quem viveu e experimentou esses processos. Mesmo tendo recebido muitos recursos na infância, também me permiti, em alguns momentos, ser conduzida por influências externas.

Não sou perfeita.

Sou apenas uma mulher que aprendeu a reconhecer-se e a reconstruir-se.

E que sempre desejou que o reconhecimento do valor da vida fosse a base da formação das crianças, para que novas gerações cresçam mais integradas a si mesmas. Esse é o único caminho para compreender e respeitar o outro e o tudo mais.

Afinal, tudo na vida é especial.

Nada é banal.

Regina Carvalho – 21.03.2026 – Pedras Grandes/SC

Ilustração IA

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