terça-feira, 10 de março de 2026

MESTRE MAIOR

O dia está só começando e cá estou, esperando-o clarear. Como sempre, sinto-me inspirada pelo variado cenário que se apresenta: o bailado dos pássaros, das mariposas e, vez ou outra,  coloridas borboletas diante de meus olhos. Neste palco sem limites de beleza, ouço o som dos grilos em debandada.

Na realidade, fosse na cidade ou no campo, nas areias da praia, em qualquer beira de rio ou até mesmo da janela de minha casa, lá estava eu observando a natureza como uma águia silenciosa,  querendo devorá-la só para me sentir tão bela e sábia quanto ela.

Normal? Quando afirmei sê-lo?


Num mundo onde as pessoas são induzidas ao materialismo e à exibição artificial, ser como eu, no mínimo causo estranheza. Meus valores sempre se pautaram pelos sentidos rigorosos e seletivos; nunca estéticos, mas vibracionais. Vibrações energéticas não se camuflam; em seres vivos, elas se exibem como são em sua totalidade, mesmo que haja resistência de quem as emite em uma tentativa infrutífera de ostentar o que, verdadeiramente, não é.

Quando jovem, já reconhecia o disfarce, mas confesso que não sabia o que fazer com as revelações que se apresentavam. Com o amadurecimento, após muitas derrapagens e tombos significativos, fui aprendendo male e mal e muito lentamente a conviver com esse prolífero comportamento humano sem que ele me ferisse de morte.

Hoje, depois de tantas experiências, reconheço que nada é mais instrutivo que as ações e reações da natureza. Ela revela, sem firulas, todas as lições, induzindo o ser humano a usar sua lógica racional para estabelecer um convívio saudável. Ela, mãe natureza atenta, presente e guardiã, nada deixa faltar. Espera apenas que não haja violação e, para tanto, envia sinais vibracionais. Quando aliados ao nosso "todo", esses sinais são reconhecidos de forma automática, nítida e eficiente, a fim de que as relações se mantenham equilibradas.

Pois é... Ainda garotinha, à margem do riacho de Guapimirim, presenciei a lição mais enriquecedora desta minha vida. Havia uma pequena queda d’água onde eu adorava me banhar; deixava meu corpinho receber aquele banho saudável que me arrepiava e oferecia um prazer inenarrável. Em dado momento, o céu se acinzentou e gotas grossas de chuva se misturaram à cascata, aumentando seu volume e força.

Ouvi ao longe o chamado enérgico de minha mãe, ordenando que eu saísse da água. Obedeci imediatamente e, ainda bem. Não demorou muito para que aquele "chuveirão da felicidade" se transformasse em uma avalanche assustadora de troncos e galhos, arrastando tudo o que encontrava. Aprendi, dali em diante, a não descuidar da minha segurança e a permanecer alerta aos sinais, tal qual semáforos de rua.

O mesmo ocorreu em uma ressaca assustadora em Ipanema, nos anos sessenta, onde as ondas se multiplicaram em uma violenta explosão temperamental. Mas, como toda impulsiva algumas vezes esqueci e derrapei nas cascas escorregadias do "sistema", com seus péssimos hábitos. Nem preciso contar o quanto me machuquei.

Nas minhas infinitas caminhadas terrenas, já corri, me calei e concordei bastante para não ser ferida. Não me envergonho. 

Nas vezes em que esqueci as regras básicas, aprendi sofrendo que a vida é maravilhosa, mas que tudo o que nela existe sente e reage, nem sempre como um sol ameno que esquenta sem queimar.

Penso, então, que sou esquisita, aérea, lúdica e tola em minhas sinceridades com aqueles que amo. Mas também reconheço que aprendi a usar e abusar dos meus sentidos: parceiros sensíveis e infalíveis.

Simples assim...

Regina Carvalho- 9.3.2026 Pedras Grandes SC

Ilustração- IA

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