terça-feira, 24 de março de 2026

ESCULPINDO A NEFRITA

Acordei pensando que sentir-me evoluindo jamais significou ter que me adaptar a novos costumes por obrigatoriedade, perdendo a originalidade das minhas convicções. Estas foram esculpidas em mim a muitas mãos, durante a infância e a adolescência, parâmetros que nem sempre tiveram destreza suficiente para talhar as nuances necessárias à estrutura rígida que sempre apresentei.

Minha mãe detinha as ferramentas de modelagem, o espaço e o tempo; meu pai era o responsável por limpar o pó e os detritos gerados pela escultora em seu processo criativo, garantindo a organização e a segurança do local de trabalho. Mamãe era a definidora do estilo; papai, o mestre dos detalhes e acabamentos. E assim, ambos permaneceram unidos por 33 anos, até que o câncer os separou.



 Discordavam, muitas vezes, sobre quais detalhes inserir ou não na obra, mas, experientes com o sucesso de uma criação anterior, decidiram manter a mesma pedra e o mesmo rigor no processo. Acrescentaram especificidade, pois sabiam das exposições e das muitas mãos, nem sempre bem-intencionadas que não apenas alisariam a obra, mas tentariam esculpir nela suas próprias visões sobre a arte.

Talvez por isso tenham escolhido não o diamante, o mineral mais duro, porém passível de ser riscado por outro igual, optando pela nefrita, resultado de suas próprias junções. Essa variedade de jade possui uma tenacidade e resistência a impactos que supera o diamante, que pode quebrar sob forte pressão.

Observando esse laborioso trabalho doméstico, noto que, de algumas décadas para cá, esculpir com dedicação e presença constante deixou de existir nos lares que é o único local onde a estrutura de qualquer arte se fundamenta. A responsabilidade das obras iniciadas ficou para terceiros. Como então, não pensar na falta que faz uma mãe presente, com o cinzel em mãos, e um pai, provedor e cuidador, ao não esculpirem suas próprias obras de arte? Deixando tal função para mãos variadas e nem sempre hábeis, enquanto fragmentam suas próprias funções, hoje já não mais por opção, mas por imposição do sistema.

Não é sem motivo que se encontram, em cada calçada, becos e bocas, uma infinidade de esculturas lascadas, rachadas, de difícil restauração ou absolutamente destruídas. E ainda existe quem diga que a humanidade só evolui e que está tudo bem neste museu de cera chamado cotidiano.

Regina Carvalho- 24.3.2026 Pedras Grandes SC

Ilustração IA

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