"O tempo não apenas revela o que está além da névoa; ele testa a nossa disposição de aceitar o que a luz mostra."
Infinitas ideias passam por minha mente, rapariga teimosa que insiste em, a cada dia, peneirar os desnecessários, privilegiando os espaços livres, a fim de que as delícias constatadas possam entrar e se acomodar devidamente, deixando, ainda, lugar para o próximo prazer que sempre ronda, querendo também fazer parte deste trajeto no ônibus universal do qual, há muito compreendi, sou a única motorista.
Pelo caminho que as circunstâncias traçaram, fui escolhendo os pontos onde deveria parar, deixando descer os passageiros indesejáveis, assim como deixando entrar aqueles que, debaixo de sol e chuva, pareciam me aguardar. Todavia, o ponto final sempre foi inevitável a cada dia viajado; lá, todos desciam, deixando-me sozinha ao volante, esperando a próxima viagem.
Percebi, então, que o ponto final era a minha consciência avaliando o caminho percorrido e os passageiros que fizeram daquela jornada um diferencial agradável. Deixavam em mim lembranças de ter valido a pena a viagem, ao ponto de me fazer esquecer daqueles que, ao saírem do veículo, tornaram-no mais leve e aprazível.
Nem todas as viagens foram tranquilas e sem sobressaltos. Em algumas, pensei em desistir da profissão, mas, quando o ponto final chegava, a consciência ponderava os prós e os contras. Em seguida, eu religava os motores e partia para mais uma jornada, levando a bordo a esperança e a vontade imensa de dirigir com o devido cuidado, para que meus passageiros se sentissem seguros.
Geralmente, após um longo dia de trabalho, o cansaço era tanto que a mente se recusava a pensar fosse o que fosse. Mas nem sempre foi possível; afinal, ela também é teimosa e voluntariosa. Refazia aquela e tantas outras viagens, garantindo descartes inúteis e guardando, a sete chaves, os muitos aprendizados.
O tempo foi passando e, com ele, tudo o que houve de bom e de ruim foi sendo peneirado sem que eu me desse conta. Até agora, quando me percebo igualzinha à minha mente: parando em cada sinal, esperando-o abrir, convicta de que, pelo letreiro que ostento, ninguém mais ousará abusar de minha tolerância., pois, sabem antecipadamente, que sem delongas os despacharei no próximo ponto, já que em meu ônibus quem decide quem fica e quem desce sou eu.
Afinal, neste veículo que cuidei sempre com esmero, mantendo-o limpo e cheiroso, fazendo de cada assento uma confortável poltrona, o tempo percorrido precisa ser um convite irrecusável de venturas cotidianas, induzindo que seja inabalável a disposição em conhecer o que a luz da próxima parada tem a oferecer.
Penso, então, nas neblinas encontradas nos caminhos que percorri e na disposição que sempre tive de olhar além de suas névoas...
Regina Carvalho-5.3.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração IA

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