São seis e trinta desta manhã de quase fim de verão, e me é impossível enxergar um palmo além da balaustrada da varanda, já que a neblina espessa tudo encobre, trazendo consigo um friozinho que, para mim, que gosto, é bem gostoso.
Meus prazeres não servem muito de base; afinal, como amo a vida, a quase tudo me adapto, lambendo os lábios e pensando num amém de gratidão que sou capaz de sentir quando saboreio algo que me dá prazer.
Do calor extremo ao frio intenso, lá está a certeza absoluta de que nasci num país maravilhoso, de muitos sotaques, texturas, aromas e sabores. E eu lá vou reclamar se, por aí afora, nada se compara de belo e natural? Porque, afinal, acrescido do aconchego do povo daqui que só por aqui existe, não importando se estiver no Sul ou no Norte, no Nordeste ou Sudeste, tudo pode até parecer diferente, mas também tudo se iguala quando a ternura pede passagem.
A pleno vapor naveguei por toda a minha vida, regalando-me com as delicadezas que só a serenidade da ternura é capaz de oferecer, suplantando até mesmo os muitos dias e noites em que a solidão foi minha mais constante companhia.
Afinal, bastava eu lembrar de um beijo ou de um abraço presencial ou à distância que trazia consigo o arrepio das vibrações sempre únicas nas intenções, para imediatamente me sentir acolhida. E aí nada, absolutamente nada, era mais forte do que sentir, na pele e na alma, que em algum lugar, por um instante que fosse, alguém pensara em mim com ternura.
Uma hora já se passou, e a neblina continua firme no propósito de me lembrar que, pelas bandas do Sul, ela é mais teimosa que o sol atrevido do Nordeste ,mas não menos gostosa e envolvente.
Bendito este meu país que tantas emoções desperta em mim. Bendita a sensibilidade que me proporciona o senso de pertencer, esteja eu onde estiver, já que sou de qualquer lugar onde o espetáculo da vida se faça presente em mim.
Regina Carvalho – 3.3.2026 – Pedras Grandes – SC
Ilustração IA

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