quarta-feira, 4 de março de 2026

EU E O OUTRO: ALÉM DO ÓBVIO

Pois é... O dia amanheceu trazendo consigo um friozinho gostoso, lembrando-me de que o verão se despede e o outono, de mansinho e a passos miúdos, aproxima-se. Ele já emite vibrações tão poderosas que balançam árvores e arbustos, deitando as primeiras folhas sobre o piso, sem necessidade de ventos ou chuvas excessivas. Apenas acirra a neblina, criando um ar de mistério que, para mim, é fantástico, pois aguça minha imaginação.

Adoro fazer ilações sobre o que poderá existir além dela, mesmo que eu afirme saber. Afinal, nada mais me parece estranho ou causa surpresa; presunçosa, creio ter gravado em minha mente todas as nuances possíveis de serem observadas.

Será?


Penso, então, que é exatamente assim que agimos nos relacionamentos humanos. Arrastamos para nós, mais cedo ou mais tarde, pequenas ou enormes decepções. Por mais observadores que sejamos, jamais seremos capazes de atravessar totalmente a névoa cinzenta das neblinas alheias.

Vivemos sob a influência de um mercantilismo cruel, herdado das monarquias absolutistas europeias entre os séculos XV e XVIII, focadas na acumulação de bens. Ao longo dos séculos seguintes, esse sistema fomentou o surgimento de uma classe sem tradição que, hoje, apresenta-se em sua maioria como meros escaladores sociais. Oriundos de guetos da pobreza material, nem sempre urbana, capazes de banalizar os mais fundamentais estreitamentos emocionais. Focam única e exclusivamente na conquista, relativizando o outro e deixando-se envolver, quase às cegas, tão somente pela estética visível e palpável. Portanto, não estranham os crescentes desencontros, cada vez mais frios e violentos, que ressaltam o descarte como solução imediata.

Nesse meio tempo, enquanto escrevo absorvida por este comparativo com a sábia mestra Natureza, constato o sumiço da neblina. A chegada do sol ameno vai revelando o "além", desvelando aspectos ainda não observados por mim. Alguns são encantadores, integrando-se ao todo existente; outros, porém, destoam do cenário, como um pequeno desmatamento e, mais adiante, um foco de fumaça em meio ao verde exuberante.

Compreendo que há sempre algo que não foi percebido. Só o tempo revelador e a disposição de novos olhares são capazes de vislumbrar a realidade e permitir à mente um "sim" ou um "não" quanto à compreensão, o que não significa, necessariamente, aceitação.

Neste caso específico, que feriu minhas retinas, resta-me lamentar, optando por focar meu olhar nas muitas belezas ainda preservadas no entorno desta maravilhosa paisagem. Mas fica o alerta: a fumaça está lá, mesmo quando escolhi olhar para as flores.

Regina Carvalho- 4.3.2026  Pedras grandes SC

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