sexta-feira, 27 de março de 2026

"O Olhar da Escafandrista"

Por que será que, na medida em que mais me aprofundo na terceira idade, que pelas minhas contas já adentrou a quarta, estou ficando velha e, apesar deste fato incontestável, mais nitidamente enxergo o que dantes sequer percebia ou apenas desconsiderava?

Nesse instante, lembro com saudades do amado amigo Roberto Fialho. Em um dia qualquer de 2018, ambos de pé conversando na calçada diante do prédio da Rádio Tupinambá, disse-lhe que estava ficando velha e ele, sem papas na língua, respondeu: "Ficando velha!?...". O que nos levou a partilhar boas risadas, inclusive devido à minha não menos real e imediata resposta sobre nossas sexualidades que, aqui e agora, não convém a uma senhora polida relatar. Aliás, falar bobagens em meio aos assuntos sérios sempre foi a nossa prioridade, talvez, também por esta razão, estejamos longevos.


Por que será que, além de enxergar melhor, mais me conscientizo de que certas situações não merecem maior atenção, por serem absolutamente irrelevantes? E, se não bastasse, por que será que, apesar de adorar pessoas, opto na maioria das vezes por permanecer sozinha? Será excesso de entendimento, experiências acumuladas ou a caduquice se manifestando apenas para lembrar que tudo passa, tudo sempre passará, menos os momentos, os amores e os amigos especiais?

Ontem, enquanto me dirigia ao dentista na companhia de meu filho, deixei que meus olhos registrassem o tanto de prédios que, frios e estáticos, existiam numa só avenida. Observei o tanto de janelas que cada um exibia e pensei alto: "A gente nem pode mensurar as histórias e seus enredos que são escritos e atuados por trás de cada uma dessas janelas...".

A depender dos índices oficiais, a preferência tem sido os dramas, destacando a insensatez que abriga os desajustes de todas as naturezas. Conhecer a criatura humana, fuçando suas emoções para talvez, numa evidente persistência, ir descobrindo as suas motivações, e assim conhecer um pouco mais também de mim em meio a esta profusão de sensações absorvidas mecanicamente por hábito, geralmente desassociadas das próprias essências, com certeza tem sido uma imensa tentação.

Creio que já nasci uma anciã, pois, desde que me lembro, as pessoas e suas atitudes sempre me fascinaram, mesmo quando me faziam algum mal. Também não me recordo de fugir delas; ao contrário, suas interrogações e intenções me eram irresistíveis. Pagar para ver sempre foi minha jogada preferida nos carteados cotidianos, mesmo detestando jogos de azar de qualquer natureza, mas não nesse, pois adoro a adrenalina que me inunda.

Seria eu portadora de alguma patologia que só a psicologia poderia explicar, ou tão somente viciei-me desde criança a ser mais impulsiva e curiosa, mesmo crescendo e envelhecendo? 

Busco entendimentos e, geralmente, encontro apenas novas performances. Bem mais que curiosa e jogadora compulsiva, sempre fui apaixonada pela vida, fuçando-a tenazmente para colher os brindes que, mesmo quando bem escondidinhos, sempre foram encontrados.

A dualidade que eu mesma, em muitas ocasiões, generalizei de forma errônea classificando como hipocrisia, é tão somente, fora as sempre existentes exceções, bailados mais que necessários para se viver em qualquer convivência onde sobreviver é regra primeira. Afinal, nem todas as pessoas estão dispostas ou possuem balas na agulha em suas resistências pessoais.

Ao sair das avaliações rasteiras e ir mais fundo, corre-se o risco de afogamento. Porém, também surgem impressionantes chances de descobrir formas variadas de camuflagens e armas de defesa de espécies que se veem ameaçadas, assim como lindas e sedutoras pérolas ainda escondidas em suas conchas e, até mesmo, navios afundados repletos de fascinantes mistérios, muitos dos quais oferecendo perigos iminentes que ameaçam e ferem os escafandristas distraídos ou de primeira viagem.

Penso nos meus mergulhos de curiosa contumaz e no quanto já me feri, não por conta do que ou de quem encontrasse, mas por deixar-me conduzir pela arrogância de achar que sabia avaliar a qualidade da aparência que se apresentava. Aprendi ao longo das caminhadas e mergulhos que tudo se resume em palcos diferenciados e que nada é apenas o que ostenta. Por trás das cortinas das peças individuais apresentadas no cotidiano das convivências, há personagens que morrem quando as luzes se apagam e cessam os aplausos, deixando expostos atores, em sua maioria, exaustos pelas incessantes apresentações, geralmente apenas destruídos nos seus scripts originais e, o que é pior, crendo-se incapazes de resgatá-los, optando, quando muito, por um novo texto...

Deduzo, como insistente observadora, inclusive de mim mesma, que manter o roteiro, colocando aqui e ali algum interessante caco, é mais fácil que mudar a história, ainda mais se a plateia, mesmo reduzida, ainda estiver oferecendo aplausos.

Será que há muito caduquei e nem percebi?

Regina Carvalho

27.03.2026 – Pedras Grandes, SC

Ilustração IA

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