quinta-feira, 12 de março de 2026

O Lúdico Amoroso

Acordei pensando no lúdico que contraria o provável, mas que, pela sua potência, sempre surtiu efeitos propulsores em minha vida, tirando-me por instantes do cotidiano nem sempre afável e promissor.

Há, como eu, quem dele extraia estímulos, quem deixe descortinar o improvável com nova roupagem e, com ele de olhos abertos ou fechados, deixe fluir uma realidade alegre e renovada.

Enquanto ocupo minha mente nos intervalos das labutas com o lúdico, deixo-a mais leve e esperançosa. Assim, ao retornar às atividades rotineiras, estas vão recebendo os reflexos de uma mente com certeza saudável, sem as nódoas de qualquer sentimento de fracasso, lamento ou incompreensão, já que o lúdico, incansável, alimenta a esperança.


Incríveis são as válvulas de salvação da criatura humana, deixando escapar o que a faz sentir dor ou qualquer outro mal-estar emocional, já que a mente coagida pelas pressões vivenciais é contaminada sem piedade a cada instante.

No fundo, todos nós sabemos desta escapatória necessária. Afinal, basta lembrar dos filmes, das novelas ou de qualquer outro mecanismo lúdico que nos permite transmutar para outra realidade que não a nossa, a improvável, onde, por minutos nos transportamos como protagonistas, nos personalizando em meio ao lúdico, tudo muito de acordo com as nossas próprias afinidades.

Porém, como uma usuária contumaz do lúdico, percebo assustada a perda constante e maciça da realidade nas mentes mal formadas, justo por falta das margens seguras dos contrapontos, mais que necessários para que a fantasia não se transforme em cópias ativas de um real aterrorizador.

E aí, quando diante de mim, nas telas e nos palcos do cotidiano, ações e reações se mostram feias, briguentas, fúteis, inconsequentes e mentirosas, estimuladoras de convívios agressivos, penso no quanto o lúdico amoroso, agregativo e romântico das músicas e filmes de minha infância e adolescência me ajudou a traçar e manter os caminhos das minhas escolhas. Mantendo-me suficientemente equilibrada e distante de qualquer embate, seja lá do que fosse, afinal, como garante o ditado popular: “pra tudo se dá um jeito, menos para a morte”.

Misturei as estações? Não, apenas coloquei no mesmo balaio a insensatez e a imprudência que, juntas, caminham com a humanidade.

Chamem-me de tola, fracassada, bobinha ou inútil, mas deixem-me escrever. Deixem-me manter acesa a chama do lúdico que me é palpável e me faz ser grata por existir. Sinto absolutamente real o lúdico que colore e perfuma a minha vida, inspirando-me a amar e, também propositadamente, desejando te contaminar.

Enquanto o sistema insiste em remédios e curativos, a minha ludicidade distribui a harmoniosa prevenção. Empiricamente, acredito que uma mente capaz de amar a si, ao outro e a tudo mais que represente vida, mesmo que seja ludicamente, se mantém abastecida da bendita gratidão. Também, seja lá pelo que for...

Regina Carvalho — 12.3.2026 — Pedras Grandes, SC

Ilustração IA

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