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UM DIA APÒS O OUTRO


 
O dia está amanhecendo e só com os meus cães e o universo, posso escutar, sem ainda conseguir ver, as gotas de chuva que esparramam-se sobre as folhas, lá no jardim, fazendo um barulhinho bem tímido, mas nítido e identificador para um alguém  que, como eu, permanece atenta a tudo que significa vida.

Respiro um pouco mais fundo e posso então sentir o cheirinho de terra molhada que majestosamente me invade muito mais que às narinas, pois sinto que banha o meu interior de mulher sensível, apaixonada, que a tudo que vê e sente precisa encontrar explicação que justifique tantos desencontros entre nós, criaturinhas humanas, ainda tão minusculamente incapazes de nos comover com a  única certeza, depois,  é claro, da morte que é a racionalidade da compreensão de apenas haver um dia após o outro.

E neste pout porri incansável e, portanto, ininterrupto, cá estamos nós com as espadas afiadas de nossas próprias incompreensões, brandindo-as sem qualquer noção minimamente adequada, tudo e a todos que a nós, não disser:

- sim.

Paro por um instante de registrar minhas observações matinais, tombo que desanimada minha cabeça, esfrego os olhos, como se assim fazendo, pudesse fazê-los enxergar melhor, não o externo, cujo óbvio se apresenta, mas a própria essência de tamanha estupidez.

Recupero em parte a minha por um instante perdida insensatez, arma poderosa que me faz manter a espada em riste, crendo ser melhor não sentir o tudo de real, pois não há ainda espaço entre nós, criaturinhas ignorantes, onde se possa habitar a lógica da universalidade, onde tudo se integra e tudo se recompõe, nada se desperdiçando, tudo se recriando.

Novamente sou atraída para o jardim e já não sou capaz de ouvir a chuva e tão pouco sinto a terra, mas com certeza, ouço os pássaros, os grilos e toda esta bendita natureza me perdoando, pela estupidez que ainda habita em mim.

E então, recordo Casimiro de Abreu, poeta brasileiro que viveu entre  1839 e 1860.

1.    - Perdão pra mim que não pude, calar a voz do alaúde  nem comprimir os meus ais!  ...


Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus —
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

................................

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

 

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