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Ferida aberta


O carro parece ter vida própria, levando-me pelas ruas nem sempre com seus calçamentos adequados, nem sempre devidamente limpa, oferecendo-me uma sensação de abandono que faz doer meus sentimentos amorosos por esta terra linda que me recebeu com respeito e carinho.

Olho ao redor por onde passo e não consigo enxergar qualquer traço de cuidados que ela deveria estar recebendo e, por conseguinte, falta-lhe brilho e dinamismo. Tudo me parece parado, inerte. Olho para algumas pessoas tomando sorvete na praça da quitanda e não percebo qualquer traço de alegria, afinal a tarde esta ensolarada e o mar à frente reluz em sua grandeza.

A cada esquina o lixo se amontoa e os únicos que parecem se importar são os cães, que o revira pasmacentamente, espalhando-o aos olhos de qualquer um. Os jardins estão ressequidos, as gramas amareladas, expostos a um calor que já sufoca neste final de ano sem pespectivas. Nada faz lembrar um Natal tão próximo e tudo me faz pensar que deveria ser diferente.

Fecho então os olhos e imagino as praças repletas das cores das plantas e flores e do brilho das pessoas interagindo umas com as outras à céu aberto, compartilhando suas emoções. Penso no quanto seria maravilhoso poder usufruir das árvores, se bem podadas, dos postes iluminados, das ruas limpas e todas calçadas. Penso no quanto seria maravilhoso que a fome, que ainda existe, fosse saciada, assim como o amor de cada legislador fosse despertado juntamente com a cidadania de cada um de nós .

Pergunto-me, então, o por que de tanta alienação e só encontro explicação no comodismo que nos assola e na cegueira que nos envolve, mantendo-nos fiéis a um atrazo já histórico e a um ostracismo simbiótico, sem pé nem cabeça, que mantém viva a chaga da miséria, alicerçando a violência, a ignorância e o pouco caso.

Que pena meu Deus !

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