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MUNDINHO DE MERDA

São sessenta e sete Natais, diga-se de passagem, maravilhosos, pois, jamais me foi privado a mesa farta e uma família estruturada e unida, sinto-me profundamente envergonhada. Provavelmente, esta seja a razão, afinal, que fiz eu além de ser magnânima, boazinha e caridosa em datas especiais? No resto do tempo, cuidei de minha vida, nem sempre tão bem, porque também fui descuidada, crendo que por ser abastada nesta vida, estaria imune às intempéries advindas das convivências humanas que certamente me flagelaram de forma invisível, pois foram ferindo a alma, do passar do tempo com seus naturais desgastes físicos e, até mesmo, por longas décadas de minha total ignorância em não perceber o meu potencial de criatura humana. Sem ter a devida consciência, fechei-me em meu mundinho de merda, crendo-me infinita e dele saindo somente em momentos pontuais, como a maioria o fazia, tão somente, para desculpar-me por tanto ter, enquanto, infinitos outros, nada possuíam. Por todo os restinhos do tempo, que eram os mais expressivos, nada mudei, nada acrescentei, nada explorei, além de meu próprio umbigo. Mas nas datas pontuais, lembrei-me dos pobres e oprimidos, das crianças e dos velhos nos asilos, e como uma Deusa da bondade, doei a estas criaturas a minha solidária presença, na tentativa banal, pobre e desesperada de me sentir menos alienada dos males do mundo. Boazinha que sou, hein!!!!!! E aí, você também é bonzinho como eu?

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