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CÁ COM OS MEUS BOTÕES...



São cinco horas da manhã de mais um domingo que, pelo cantar dos pássaros que já povoam o meu jardim, será de um luminoso sol.

De repente, os cachorros se movimentam frente a um barulho de folhagens nada comum, levanto o corpo para ver se consigo identificar através da janela e nada vejo e, pelo visto, nem eles, pois já estão de volta à porta na espera paciente de eu deixá-los entrar.

- Ainda não, deixe amanhecer primeiro.

Penso cá com os meus botões, contrariando minha natureza amorosa, que gosta de tê-los ao pé da mesa, silenciosos como fiéis guardiões.

Enquanto travo esta luta boba e desnecessária entre o prazer de ter os meus cães bem pertinho de mim e a imensa preguiça de levantar desta cadeira para abrir a porta, ouço fogos à distância e tento descobrir de onde eles vêm.

- Será do  candomblé, ainda da política ou hoje é dia de algum santo, e eu não estou sabendo?

Enquanto ainda penso no desnecessário, percebo que de um instante para o outro, o dia amanheceu. Só que todo este processo levou dezoito minutos para ser concluído, tempo que precisei para decidir-me levantar e, finalmente, abrir as portas, deixando meus parceiros das madrugadas entrarem, num ritual cotidiano que me inunda de prazer.

Já posso enxergar de onde estou os galhos finos e longos da amoreira repletos de minhas frutinhas preferidas, e como mantenho a imaginação a galope, posso até associar os balanços naturais do já presente ventinho do mar, em chamamentos irresistíveis, nos quais me entrego sem qualquer questionamento, apenas superando o que ora percebo ser preguiça que confundi com cansaço.

Um pouco mais distante, um bem-te-vi disputa o palco com pelo menos dois sabiás, que por suas vezes, disputam comigo o privilégio do deguste das amoras que bem escurinhas se exibem em um destaque soberbo, adornando com suas raras belezas, este espaço do jardim.

E enquanto mordo a frutinha, deixando-a explodir, inundando o céu da boca, provocando em mim prazer inenarrável, olho ao redor e só enxergo flores.

 Lembro-me então, que a primavera chegou e que daqui pra frente, sua excelência a natureza se fará mais forte, mais vibrante, bem mais atuante, arrancando de mim o marasmo, a preguiça ou o cansaço, doando a mim suas cores e seus aromas em uma sempre fascinante presença.

Penso cá com os meus botões que sou uma troncha abusada que acorda com as andorinhas, come com os sabiás, escreve ao som dos bem-te-vis e faz de seus três lindos cães, suas mais constantes parcerias e ainda displicente e muito cara de pau, se dá ao luxo safado de se dizer muito cansada, com preguiça e coisa e tal.

 

 

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