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LIXO EXTRAORDINÁRIO

Dentre as posturas humanas que mais tem me chocado ao longo de minha vida, certamente, tem sido a capacidade humana em justificar-se diante de tudo quanto se vê, direta ou indiretamente, responsável por aquelas em que se vê refletida, levando-a a um questionamento pessoal inesperado, onde ela, criatura, se enxerga, perguntando a si mesma:

- E se fosse comigo?

Nesses instantes, de forma imediata, buscando socorro em seu emocional, que foi abalado, busca no racional apoio consolador, antes que este se contamine e atue fora dos padrões adequados a auto-preservação frente a um social “impassível” que ela, criatura, por conhecimento próprio, instinto ou observação, sabe que não a perdoará, se não agir dentro dos padrões já estabelecidos, que é justo, buscar no aparente imponderável o que o ponderável já a condenou.

A partir daí, um bailado interno de argumentos camuflativos entra em cena e nada mais é real, além da absurda necessidade em proteger-se da ameaça visível de se permitir ser sensível e humanamente honesto e coerente com a sua natureza humana de um ser dotado de capacidade afetiva.

Esta é uma das características da “dor social” que permeia as escolhas e determina posturas, espelhando os perfis que são traçados de uma sociedade doente, cada vez mais triste, por se sentir dividida, sem amparo sustentável no interior de cada célula humana que a compõe.

Quanto é maior é a ignorância educacional e intelectual, maior a cegueira existencial, assim como quanto maior for o abastecimento intelectual, maior é a fuga de si mesmo a uma realidade que, se enxergada, faz doer, pois traz a luz do consciente, as imagens de sua própria incapacidade de opor-se à brutalidade de sua racionalização à respeito da vida, sua, dos demais, que representam em um todo que, apesar de existir, a criatura se esforça em não sentir.

A partir deste raciocínio, pondero a respeito do Documentário “Lixo Extraordinário”, buscando focar não o apelo emocional que obviamente o filme apresenta, tão pouco analisar o porquê de existir uma situação daquela natureza.

Ater-me-ei às considerações que observei nas explanações que foram proferidas após a exibição do mesmo que, afinal, foram reveladoras, assim como bastante esclarecedoras, justamente porque foram resultado de uma imediata auto defesa, absurdamente necessária a todo aquele que a se ver na mesma situação apresentada no contexto exposto, espontaneamente corre em socorro de si mesmo, traçando eloqüentes desculpas pelo horror que naturalmente repudia, instintivamente não enxerga e vergonhosamente anula de sua realidade individual, engrossando assim o contingente de robôs existenciais, mas que em dado momento se sente na obrigação de justificar a si e aos demais, uma passividade e uma covardia, aliadas ao instinto que assimila impotência à uma conclusão e conseqüente racionalidade, frente à constatação do inimaginável, que se apresenta concreto, atuante e real.

E a cada discurso que se apresenta, vê-se a dor, as frustrações e o medo de existir, desfilando através de cada palavra proferida, permitindo ao observador atento, medir a extensão da ilusão que cada criatura absorve para si, na tentativa desesperada de se manter cega, para não ter que admitir que se vê e se sente um nada, sem propósitos maiores que justifique estar vivendo.

Este é um procedimento mental que ocorre por todo o tempo, direta ou indiretamente, que é trazido a cada criatura humana no seu caminhar cotidiano e onde ele vai exercitando a defesa pessoal do não sentir, do não enxergar, do não ouvir, do não tocar e do não, finalmente, ser.

E aí, neste instante, lembro-me de Jesus ao afirmar:

- Hipócritas!

Percebo, então, que a hipocrisia é tão somente o Lexotan no qual a criatura se ampara para camuflar sua ansiedade em não se livrar de mais uma culpa, até mesmo por não compreender a sua impotência que a leva ao aparente descaso que demonstra ao absurdo.

O duelo de contradições se faz nítido, cruel, devastador, ao ponto de se comparado aos fatos reais apresentados pelo documentário, nada ficará a dever, pois o lixo interior que cada um se esforça em camuflar cai fedorento através das pseudas luvas protetoras das palavras proferidas e dos olhares, dos gestos e da concordância dos demais, ficando nestes instantes, claro como a nitidez da água pura de uma cascata, os fundamentos de um sem número de posturas compensatórias que se vão desenvolvendo através de uma luta interior que começa desde a mais tenra idade, entre o racional e o emocional, justo por jamais terem sido apresentados como irmãos e bons parceiros para trilharem juntos um mais suave caminhar, protegendo com tudo, seu corpo, sua morada, sem se esquecer do restante, que afinal é o “todo”, onde o conjunto do que representa o seu ser, sobrevive.

Equação de uma lógica que é refutada pela total ausência de subsídios apaziguadores.

Ao final do evento, todos sorriem e tudo fica aparentemente igual no externo da convivência, mas na realidade, tudo se alterou, pois não se esconde o que se fez visível, sentido e assimilado.

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