Estou aqui pensando, enquanto espero o dia clarear, já que são quase 7h30 e, por enquanto, tudo ainda está escurinho por estas bandas do sul: se meu pai estivesse vivo e eu fosse adolescente, tal qual ocorreu nos anos sessenta, como seria minha vida?
O homem era uma águia vigiando cada passo, aonde quer que eu fosse. Minha mãe, sob sua supervisão, o supria com devoção de segunda a sexta, enquanto ele estava ausente, pois trabalhava em Barra Mansa e só chegava ao Rio nas sextas-feiras à tarde.
Era justo no final de semana, em que eu estava mais livre e sem a rotina escolar, que poderia esbaldar-me na praia e nos cinemas, na companhia das poucas amigas. Biquini, nem pensar...
Namorar foi um ato heroico, sempre sujeito a sustos memoráveis. Em algumas ocasiões, fui surpreendida e, obviamente, flagrada num abraço ou beijo rápido dados às escondidas. Mesmo assim, eles eram pressentidos pelo faro aguçado daquele tirano doméstico.
Mas sabe como é: para Regina e Robertinho, o que não faltava era criatividade. com uma dose de sutil malandragem.
Observando as mudanças que foram ocorrendo de lá para cá, o que eu teria feito da minha abusada belezura, do meu instinto de liberdade e desta incontrolável poesia que insistia em transportar-me para um mundo perfeito?
Anos mais tarde, descobri não ser a única a idealizá-lo, já que um tal de Platão já o fizera em detalhes.
Não tenho a menor ideia, além da certeza absoluta de que a paixão pela vida estaria presente em cada respirar do meu corpo, assim como em cada processar de minhas sinapses inquietas, fuçando aqui e acolá as belezas existentes. Provavelmente, a leviandade poderia até me atrair, mas jamais tomaria posse das minhas escolhas.
Penso então: eu as teria românticas e adocicadas ou teria me curvado aos apelos de uma sociedade pueril, onde, a cada dia, determinados valores já não encontram lugar para apenas existirem?
O que seria de mim sem a suposição dos propósitos duradouros? Hoje, com a idade avançada e com uma bagagem tão variada e rica de lembranças, o que me restaria além da contagem monótona dos supostos amores perdidos e dos muitos momentos de profunda solidão entre uma noitada e outra? Momentos onde meu corpo e minhas expectativas tivessem sido apenas usados, tendo, talvez como consolo, uma conta bancária estável e um closet abastecido dos modismos usados a cada estação.
Será que meu pai teria agido diferente e minha mãe, como cúmplice fiel, permaneceria calada diante dos imponderáveis movimentos modernistas? Será que fingiria não observar a minha absurda infelicidade, consolando-me com a sua presença , assim como e dos muitos aditivos receitados pelos psiquiatras ou vendidos nas bocas das esquinas da solidão.
Até quando, seria a grande incógnita.
Creio, então, que nasci na época e lugar certos, onde pulei muros e cercas para vivenciar instantes de absoluta e romântica ilusão. Corri léguas ao lado de um grande amor que, mais que meu corpo, quis-me por inteira, deixando como lembranças o fel e o mel de uma variada e nada comum convivência em meus lábios. Tudo a fim de que possa hoje lamber os lábios com um prazer que não arrefece, pois brota dos meus poros continuamente, renovando meu insaciável gosto de viver.
Concluo que papai, como todo tenaz machista, fingiria modernidade, mantendo a corda dos limites em suas mãos com a expertise de um narcisista convicto. Afrouxaria aqui e acolá, mas manter-se-ia no controle, já que charme não lhe faltava e lábia de convencimento, menos ainda. Portanto, ele agiria tal qual o fez no passado. Afinal, o que não lhe faltava era sensibilidade e inteligência. Nesta semana dos pais, homenageio o senhor Hilton Carvalho, de quem herdei a irreverência e o sentido de real liberdade, além de um glaucoma intermitente que jamais me impediu de enxergar as belezas à minha volta.
Te amo, meu pai.
Regina Carvalho – 05/08/2026Pedras Grandes, SC.
Ilustração IA
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