Ontem à tarde, enquanto acalentava amorosamente meu neto de apenas treze dias em meus braços, olhava fascinada seu rostinho sereno. Minha mente pululava em interrogações. Afinal, o que será dele daqui a dez ou quinze anos em meio a este mundo onde as ciências e as tecnologias parecem estar em uma corrida sem limites de velocidade?
Tecnologias que hoje, desalmadas, atropelam sem piedade nós, os pobres mortais que, sem eira nem beira, nos aglomeramos em grupos tão somente para sobreviver nestas selvas sistêmicas, cada qual com regras e normas que sequer temos tempo e conhecimento para mensurar.
Ele saberá acompanhar ou será mais um a seguir a massa que mais lhe fizer sentido? Meu olhar amoroso deixa brotar uma lágrima que tento disfarçar, já que teria de explicar aos demais presentes o porquê dela e, aí, provavelmente eu teria de mentir. Afinal, como explicar que sentia um misto de medo e pena, tendo como indução o que já se vive loucamente neste mundo, onde sentimentos se perdem e alguns jamais se fizeram presentes na vida de muitos? Penso que a geração nascida entre as décadas de cinquenta e setenta, apesar das profundas alterações comportamentais que deram o pontapé inicial a tudo mais que veio a se apresentar em todos os níveis existenciais, ainda tinha o amparo de estruturas, embora capengas, mais resistentemente sólidas de valores amorosos e éticos.
Mas e agora, que a maioria está morrendo por atacado, o que restará? Filhos que viraram pais em uma transição confusa e sem limites, onde valores são jogados nas lixeiras do individualismo e da conveniência, restando alguns poucos resistentes que, por sobreviverem ao turbilhão de emoções duvidosas, esforçam-se na adequação de um meio-termo que, sabidamente, não resistirá à força brutal das águas violentas dos tsunamis modernistas, seja lá do que for.
De repente, afasto o negativismo próprio de quem conseguiu salvar-se e ainda precisa manter o ar nos pulmões, já que a cada dia novos desafios são apresentados e, aí, penso em tudo que recebi, li e apliquei no meu cotidiano, desejando que o mesmo seja oferecido a ele em forma de cores, aromas e sabores, mais que qualquer coisa material, a fim de que o ato contínuo de viver amorosamente se estabeleça, mesmo que aparentemente, como já ocorre hoje, a banalidade insista em sufocar.
Regina Carvalho- 31.8.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração- IA
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