sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O Ofício de Pertencer a Mim

Não há nada mais compensador do que o privilégio da vida que reside em mim e no outro. Lamento apenas que a humanidade ainda não tenha total consciência disso. Quando leio e escuto pessoas instruídas e qualificadas, percebo algo fascinante. Elas narram exatamente o que passei a minha vida de anônima escrevendo.

Revigora-me pensar no poder do meu passado. A dor, as perdas, as indiferenças e as incertezas foram capazes de me polir. Elas me levaram a experimentar na pele os efeitos de uma grande conscientização.


 

Essa virada começou na minha juventude mas, eu estava viciada no mesmismo comportamental. Carregava uma profunda e vaidosa insegurança. Por isso, precisei de anos a fio para integrar essa verdade aos meus instantes existenciais.

Nada aconteceu num estalar de dedos. O tempo foi o meu mestre. Precisei dele para ir assimilando e dissecando minhas ações e, principalmente as minhas reações frente aos desafios. Naqueles dias, a antiga Regininha perdia terreno a olhos vistos. Ela cedia espaço para hábitos e costumes que sutilmente a corrompiam.

A escrita foi a salvadora, minha companheira inseparável nesta jornada de reeducação. Foi através do papel e das letras que pude espelhar minha incapacidade de viver plenamente. Ali, fui corrigindo meus caminhos de forma visceral, aqui e ali. Tudo isso sem perder o meu prazer constante de existir e de amar. e ainda jogando no lixo cada culpa que maldosamente  surgia.

Meus registros antigos doem, mas revelam verdades. Eles me mostram o quanto eu desperdiçava a vida por total ignorância. Eu desprezava, inconscientemente a finitude, mesmo admitindo aleatoriamente que ela podia ocorrer a qualquer momento. Enquanto ignorava isso, levianamente direcionava meus sentimentos mais profundos para tudo, menos para mim, menos para os instantes reais. Eu adiava a minha vida. Até que entendi a grande lição: o instante presente é a única certeza.

Em 2005, enquanto escrevia minha obra Equilíbrio, Razão e Amor, fui tomada de consciência em cada uma das 224 páginas, cada qual representou uma avalanche incomensurável de realidades que haviam empanado o brilho da minha juventude. Percebi o quanto eu tinha de valioso e que abria mão, numa doentia desistência pessoal.

Então, fui aprendendo a desistir de agir para satisfazer o que as pessoas esperavam e do que o sistema exigia para me dar reconhecimento. Escolhi tão somente sentir o tudo de bom que eu representava. Afinal, eu era apenas um fragmento em meio a uma vida sem defeitos ou reparos.

Mais do que seguir qualquer ideal filosófico, fiz trocas sábias. Fui perdendo certas ilusões e ganhando verdades. Compreendi, finalmente, que o propósito humano é apenas existir sem deixar, em momento algum, de ser quem se é.

Afinal, nada é mais poderoso do que a nossa verdade pessoal. Ela é o único mecanismo mental capaz de fazer brotar o melhor de nós. Esse movimento se reflete, automaticamente na qualidade do trato consigo mesma e com o universo.

Simples assim? Não. Se fosse fácil, eu não estaria ainda no meio do processo. Preciso me vigiar constantemente. O vírus da mesmice é vaidoso, persistente e incansável. Mas posso garantir: vale cada segundo. Vale a pena usufruir de tudo de bom que este plano existencial oferece. 

Hoje, colho os frutos e saboreio da fidelidade a mim mesma. Dessa lealdade eu não abro mão. Já que a minha agenda é programada exclusivamente por mim.

Regina Carvalho, 16 de outubro de 2026, Pedras Grandes, SC.

Ilustração -IA

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