Ir a um restaurante sozinha, talvez a uma sessão de cinema ou teatro. Entrar, todos os dias, num apartamento vazio, quem sabe com um cachorrinho esperando. Sem esquecer dos finais de semana, que é quando o bicho pega. Usa-se uma tal de solidão que transformam em liberdade, independência ou seja lá o nome que se queira dar, mas que, ainda assim, precisa de uns aditivos, terapias, bailinhos e piedosos convites de alguns amigos para ser suportada. No início, é ótimo por ser diferente. Com o passar do tempo, porém, a solidão começa a pesar. Então, entra a internet e a busca de parceiros nas plataformas de encontros e, nesse caso, a coisa pode complicar. Escrevo sobre este modismo que a Globo abraçou e mostra de forma colorida, onde todos estão felizes e realizados.
Todavia, percebam que eles não se aprofundam: permanecem nos limites de bons e adaptáveis apartamentos, comidas e lavanderias que facilitam a praticidade do cotidiano. E, é claro, mostram as rodas de dança de salão às sextas-feiras, onde todos estão sorridentes e felizes.
Mas e o carinho de pele que tanta falta faz? Será que apenas a rotatividade satisfaz, suprindo aquele aconchego de uma continuidade que afaga a mente e a alma? Talvez. Afinal, o mundo mudou, mas e as necessidades íntimas das pessoas? O que fazer quando a carência começa a pesar? Mesmo repleto de variedades, o ser humano ainda precisa da estabilidade do mesmo cheiro, da mesma textura e do mesmo sabor. Isso é tão certo quanto dois mais dois são quatro. Todavia, a pessoa se consola num troca-troca sem fim, pensando no inferno que foi a sua vida ao lado de alguém. Consola-se com o que der e vier, desenvolvendo um individualismo gerador da indiferença, primo-irmão da carência, que altera o humor e a sensibilidade. E aí, dá-lhe Rivotril ou coisa que o valha.
Viver consigo mesmo não é uma tarefa que se aprenda logo em seguida de um divórcio ou luto, e muito menos depende de atividades extras para ir se incorporando na pessoa como se fossem varas de condão milagrosas. Viver só dói. Às vezes, tão profundamente que parece que as vísceras sairão pelo umbigo.
Buscar uma forma de conviver consigo, além de doer, cria fantasmas perigosos. Eles se transfiguram em desejos a serem realizados e em lembranças de frustrações já vividas. Aí, pode acontecer de uma falsa utopia tomar o espaço da razão e do equilíbrio, levando a criatura a buscar esperança em algum lugar além de si mesma.
Na realidade mesmo, jamais confessada, os bailinhos das sextas-feiras nada mais são que balaios de opções que se tem, na expectativa de que neles exista o ideal. Mas que, cá pra nós, jamais existirá se esse ideal não for realista. Ou seja: o mel e o fel a serem digeridos, do café da manhã ao jantar, sempre estarão presentes, já que conviver exige, mas tem suas preciosas compensações.
A frase popular que garante que "é melhor só do que mal acompanhado" precisaria ser estudada e esclarecida. Afinal, a palavra "mal" pode ser tão perniciosa quanto estar só.
Pessoalmente, vivo sozinha há seis anos por opção. É preciso que eu diga, com todas as letras, que nunca foi fácil, principalmente nos dois primeiros anos. Todavia, como sou uma "esquisita", mergulhei em mim, recusando-me a buscar paliativos de qualquer natureza. Afinal, se era para sentir dor, que esta fosse sentida sem maquiagens de disfarce.
Hoje, convicta da delícia de só ter de pensar em mim, ainda me vejo, vez por outra, pensando: como eu agiria se, de repente, surgisse um velhinho cheiroso para me fazer companhia? Afinal, não corro atrás, mas se aparecer... sei não.
Enquanto eu viver, jamais direi que dessa água eu não beberei...
Regina Carvalho8 de agosto de 2026 – Pedras Grandes, SC
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