sexta-feira, 7 de agosto de 2026

INVENTÁRIO EM VIDA

Acordei pela madrugada fechando um grosso caderno e logo o reconheci como um relatório gerencial e contábil definitivo que confronta receitas, custos e despesas para apurar o lucro ou prejuízo final de minhas atividades pessoais enquanto mulher, esposa, profissional e mãe. 

Olhei na lateral e pude perceber que havia vários cadernos que, ao longo da vida, improvisei, transformando-os em livros-caixa para registrar expectativas e frustrações, sorrisos e lágrimas, perdas e ganhos meus e daqueles a minha volta. 


Avalio, neste momento, que isso me ajudou enormemente no quesito disciplina, mas, acima de tudo, colaborou para que eu permanecesse por todo o tempo avaliando as situações e mantendo-me consciente. Assim, com o tempo, fui percebendo os pontos tanto fracos como fortes da administração que exercia na empresa chamada Regina, permitindo-me, inclusive, optar por fechar as portas, trocar de ramo ou apenas continuar, afinal, o estoque sempre foi de primeira e possível de se negociar, mesmo quando apresentava avarias.

Pois é, nunca pensei em meu inventário, muito menos estando viva, mas também eu não seria a irreverente Regininha se deixasse outro fazê-lo por mim depois de morta, já que ninguém conheceu tão profundamente a minha mente e a minha alma. 

Portanto, deixarei meus cadernos em manuscrito para que não haja dúvidas quanto à contadora e aos seus registros, pedindo apenas compreensão quanto à realidade dos levantamentos diários, pois são frutos de uma tenacidade não isenta das naturais emoções que o inventário cotidiano causava nesta mulher, antes de tudo, apaixonada pela vida.

Pois é, neste amanhecer, ao fechar estes quase sessenta anos em que estive à frente da administração de minha empreitada existencial, ponho fim a uma longa caminhada com a alma lavada e enxaguada, como se diz no popular. E, como não poderia deixar de ser, também copio meu pai, que nos momentos cruciais sorria e dizia uma palavra de desapego a tudo mais que aporrinhou a minha vida, e até mesmo ao poeta Mário Quintana, que afirmou que todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão, eu passarinho!

Pois é. Nesta manhã abro um novo caderno para registrar, dia após dia, até quando não sei, uma nova história, onde não mais serei responsável pela vida feliz ou infeliz de mais ninguém além da minha, afinal se o capital é pequeno, se vira bicho, como eu me virei, e ainda posso hoje,  dar como finalizado o meu inventário até ontem. 

Missão cumprida, arre égua!!!

Isso é ou não é um balanço final positivo?

Regina Carvalho, 7.8.2026, Pedras Grandes, SC.

Ilustração. IA

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