SER OU NÃO SER, eis a questão. Na famosa fala da peça Hamlet, de William Shakespeare, o príncipe reflete se é mais nobre aguentar os sofrimentos da vida ou dar um fim a eles, concluindo que o medo do desconhecido após a morte é o que nos faz suportar os problemas.
Hoje, no amanhecer da véspera do nascimento de meu primeiro neto, acho impossível deixar de refletir sobre o mundo que ele irá encontrar. Um mundo que a cada instante se transforma e se automutila, num desespero coletivo onde apenas as decisões unilaterais parecem existir.
Shakespeare escreve explicitamente que "a consciência nos faz covardes". O excesso dela sufoca as reflexões. Opta-se em apenas sobreviver, numa busca frenética por respostas prontas que as religiões, cada qual com seus dogmas, distribuem em troca de dízimos e ofertas, haja o que houver.
Penso, então, que assistir às ocorrências do mundo através das telas da comunicação, mais que assustar, enlouquece. Esse cenário atordoa e exige daqueles que ainda resistem e refletem uma dose absurda e contínua de resiliência pessoal, já que tudo o mais parece não fazer nenhum sentido.
Os cotidianos, com seus flagelos individuais que se refletem como ondas de um tsunami ao redor, quando observados, parecem de igual tamanho e despropósito daqueles que a mídia mostra. A humanidade já os banalizou, incorporando-os hipoteticamente como absurdos, mas esperados. Por que ou para quê? Isso não vem ao caso.
Acelera-se tudo, principalmente a alienação de valores. Pergunto-me se esses valores algum dia existiram ou se a internet tão somente os globalizou, destampando as panelas da surdina cultural.
É normal e justificável deixar ditadores genocidas por mais de 50 anos no poder e, ainda, receberem asilo numa proteção cúmplice de uma poderosa potência? Isso explica a participação de mais de quatro anos numa guerra atroz e desumana contra a Ucrânia. Ou, talvez, assistir às desgraças provocadas pelos terremotos na América do Sul e tantas outras ocorridas no mundo, onde milhares de pessoas são esmagadas em escombros ou assassinadas pela louca ganância, enquanto nós, benditos brasileiros, deixamos de prestar atenção na fome e na miséria. Em todos os seus aspectos, elas ocupam trens, metrôs, ônibus e calçadas, não só das grandes capitais, mas dos becos e ruelas de nosso próprio país. Buscam-se respostas fáceis e soluções imediatistas, mesmo que pífias, já que isso nos consola da miserabilidade humana que, me parece, sempre ter existido.
O serviço secreto justifica que o presidente da maior potência do mundo este, não mundo não questiona o ato de sair clandestinamente de um avião, deixando para trás centenas de pessoas para serem alvos do inimigo. Assim como é amplamente justificado colocar no poder pessoas altamente condenadas por várias instâncias, mesmo tendo tido todos os recursos de defesa. E ainda acham-se no direito de defender a honra de um judiciário que há muito se esfacelou, afastando um juiz por beber e fumar numa audiência. Concordo que isso é inadmissível, mas é o sol sendo tapado pela peneira do absolutismo déspota da vergonha. É nítido que o meritíssimo enlouqueceu, mas e os demais que enlouquecem, alienando com capas e cinismo toda uma nação?
Ser ou não ser, essa é a questão. Até porque, o que haverá do outro lado? Será um paraíso com verdes planícies ou um pântano com o lixo que se desenvolveu por aqui?
O que deduzo é que, se ficar o bicho come, mas se correr o bicho pega.
Regina Carvalho, 12.8.2026. Pedras Grandes, SC.
Ilustração:IA
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