Pular para o conteúdo principal

POMBA LERDA


Às vezes ao longo de minha vida, pensei e me senti como se não fosse deste mundo.
Meu estranhamento advinha da minha constante sensação em não me sentir devidamente integrada ou compreendendo o cerne dos objetivos da maioria das experiências nas quais as outras pessoas esperavam me ver integrada.
“Desce do mundo da lua”, dizia constantemente minha mãe.
“Acorda mãe”, em que mundo a senhora está? Afirmativa sempre na ponta da língua de minha filha.
E por aí vão as críticas em relação a minha inexplicável, mas persistente, “viagem mental” e olha que sem precisar de nenhum tipo de aditivo alucinógeno.
Fico imaginando se eu em algum momento fumasse um back, aí é que eu faria um tour sem limites.
Mas falando sério, penso o que seria de mim, neste louco mundo se não houvessem estas escapulidas, tipo férias de momentos, instantes e até horas em que eu simplesmente me transmuto, sei lá para onde, mas que com certeza não se trata de lugares ruins, pois sempre retorno mais tranquila e inspirada me sinto.
Por outro lado, após cada “viagem”, elimino uma série de necessidades e pseudos quereres, que vejo aprisionando silenciosamente as pessoas que me cercam.
E para cada acessório que ao “viajar” me desfaço, para que a bagagem mental seja mais leve, mais no retorno à realidade, me sinto abastecida de surpreendentes valores, dantes soterrados sob a pressão de um sistema humano viciadamente inútil.
Então concluo que não passo de uma pomba lerda, sempre a pelo menos um passo atrás dos descolados e dos ligadões que, a cada dia, explodem seus corações na corrida frenética para lugar algum, que será igualzinho ao meu, cremada ou enterrada, levando consigo o peso do seu permanente “ter”, cuja entrada sei lá onde, definitivamente será vetada, pois é por aqui que tudo fica e esta é a única certeza.
Decepção que no final, não terei...
Afinal, alguma compensação deveria existir para uma pomba lerda.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OPRESSÃO CULTURAL

Acreditei estar me especializando na área da observação do comportamento humano e, por toda a minha vida, pensei estar aprendendo tudo quanto poderia, e, no entanto, absorvida com a diversidade infinita que me cercava e totalmente fascinada com o que majestosamente me apresentava a cada instante, me perdi totalmente, e, de repente, assim sem qualquer aviso prévio, vejo-me diante de minha não menos infinita ingenuidade avaliativa e percebo, então, o quanto nada sei em relação a capacidade humana em se adaptar às circunstâncias, ou a buscar posições favoráveis à suas conveniências pessoais de adaptabilidade social.Há alguns anos, venho tentando entender o porque de minha paixão por Itaparica, visto que conheci inúmeros outros locais, não menos bucólicos e acolhedores. E agora, como um raio de luz esclarecedor, posso compreender que em minhas buscas pessoais de aperfeiçoamento, encontrei aqui, neste local encantador, todos os subsídios necessários a um aprendizado mais concreto e expli…

Os professores: Um “novo” objeto da investigação educacional?

Houve um tempo, afinal nem tão distante, em que a função da escola era prioritariamente ensinar disciplinas que contribuíam nos universos de cada criança, despertando-as em suas inclinações naturais, na construção de seu futuro perfil profissional e pessoal.
Também era no ambiente escolar que a criança exercitava a convivência, não só com o contrário, mas principalmente com o diferente, deixando aflorar os ensinamentos oriundos de seu núcleo familiar.
Era comum ouvir-se: “a educação vem do berço”.
E este berço, não necessariamente precisava ser abastado economicamente e muito menos letrado, pois havia os conceitos pré-estabelecidos, onde as posturas respeitavam os limites do alheio, criando-se assim normas socais de conduta, não só externa, mas antes de tudo em meio à própria família.
Nesta época a que me refiro, havia uma distinção entre as atribuições tanto da família como da escola, assim como sob nenhuma circunstância esperava-se do mestre qualquer atributo fosse materno ou paterno, a…
SURREAL, na falta de uma palavra mais adequada para definir o espetáculo das diferenças sistêmicas que se apresentou no Paço municipal de Itaparica, nesta manhã de 15 de janeiro de 2018, quando da posse da nova Secretária de saúde, senhora Estela de Souza. Minhas observações são resultadas de um espanto generalizado de uma representação pra lá de inimaginável em uma terra abandonada pelos poderes públicos e que, como resultado, fez nascer e se desenvolver um povo acanhado, sofrido e marginalizado, incapaz de ter voz ativa associado à sensatez da busca do que acredita ser os seus direitos. Enquanto, uma elite frajola, elegante, cheirosa e desconhecida à cidade e ignorante das reais necessidades da mesma, discursava no salão imperial, aplaudindo a si mesmo, meia dúzia de oposicionistas gritavam palavras de ordem em nome de um povo acovardado que se escondia atrás de muros e janelas, incapazes de ter voz ativa, além do anonimato das esquinas, bares e corredores, numa expressividade indubi…