Pular para o conteúdo principal

LIMPANDO O ARMÁRIO


A cada dia, vamos acrescentando em nossos cotidianos mais e mais conteúdos, que, em sua gigantesca maioria, não deveriam ser armazenados junto às nossas emoções. Entretando, o fazemos continuamente, justo porque não nos atemos a prioridade maior de cuidar com zelo do nosso maior patrimônio, que é permanecer limpos emocionalmente para podermos sentir a nossa grandeza existencial.

Somos tão atarantados que só conseguimos nos sentir vivos quando percebemos a proximidade com a morte, e aí, quase enlouquecemos, porque percebemos em um só momento que o tudo já vivido não poderá ser alterado em favor do momento presente. Passamos, então, como ávidos buscadores a ir de encontro a mudanças de posturas que a cada instante nos conscientiza do quanto fomos tolos e pouco atenciosos conosco.

Desde muito cedo, somos condicionados às emoções instantâneas, tipo: mensagens adocicadas, poemas amorosos, tragédias com o alheio, frases e músicas com efeito envolventemente românticas e etc. e tal, o que na realidade, não penetra em nosso armário emocional, permanecendo tão somente nas periferias de nossas estruturas emocionais, muito mais como recursos imediatistas de sobrevivência pessoal ou de subsídio de compartilhamento politicamente correto junto as interações de convívio social por puro hábito comportamental da maioria das culturas, como se inerentemente necessário fossem .

Em meio a estes envolvimentos periféricos, deixamos a nossa estrutura absolutamente à deriva das circunstâncias cotidianas, e esta, permanece absorvendo sem qualquer critério avaliativo tudo quanto não lhe é afim, desenvolvendo uma estrutura frágil, sem qualquer parâmetro junto a realidade de nossas mais básicas necessidades emocionais que nos ampare de verdade, frente as situações onde somente o equilíbrio postural emocional, seria capaz de nos fazer sobreviver sem maiores traumas, principalmente ao nosso físico, pois o psicológico já se encontra danificado.

Ora, se fragilizamos a nossa morada, o nosso hospedeiro, como poderemos nos qualificar como seres racionais?

Se só terei um corpo físico para abrigar toda a bagagem que vou acumular ao longo de minha vida, como posso ser irresponsável e danificá-lo por todo o tempo, expondo-o a toda e qualquer intempérie?

Não deveria ser prioridade ensinarmos as crianças desde a mais tenra idade o valor desta morada imprescindível?

Pode haver algo mais prioritário que aprender a cuidar com respeito deste corpo que abrigará por todo o tempo o nosso espírito energético?

E aí, questiono-me quanto ao livre arbítrio que também nos é ensinado como explicação às incompreensões que certamente povoam as nossas mentes racionais, chegando a conclusão que realmente não a temos, uma vez que somos produto de uma devastadora ação continuada de hábitos comportamentais de grupos sistêmicos sem qualquer fundamentalismo de nosso real valor como ser vivo. Não estamos capazes de uma maior avaliação disto ou daquilo, porque, simplesmente, não sabemos o que somos, de onde viemos e para onde iremos, justo porque tal resposta que nos daria subsídios de certezas não existe, porque não existe a conscientização de nossa participação no contexto interativo deste universo que nos abriga.

Entretanto, se ensinassemos nossos bebês a provar de suas próprias lágrimas ou, frente a um espelho, apreciar o brilho de seus sorrisos espontâneos, estaríamos oferecendo a eles, no mínimo, o sabor, assim como o potencial amoroso deles mesmos e da vida que neles habita, induzindo-os carinhosamente a perceberem–se e a valorizar tudo quando são capazes de produzir ao se permitirem expressar suas emoções.

Tudo é tão simples em se tratando de viver e nós, criaturinhas complicadas, tornamos esse ato, na maioria dos instantes presentes, muito difícil, exatamente porque insistimos em não colocar a vida em seu devido lugar de destaque absoluto em nossas existências de humanos racionais.

E aí, não sabemos exatamente porque choramos ou sorrimos, e ao faze-lo sequer consideramos as suas potencialidades no comando de nossas ações cotidianas. Dizemos a nós mesmos que estamos vivendo, que acumulamos isto ou aquilo, que somos doutores e PHDs nesta ou naquela área, sem, no entanto, perceber que somos apenas ignorantes seres, incapazes ainda de nos reconhecermos como máquinas perfeitas, ciência exata, colosso da natureza.

Bom dia a todos neste primeiro dia de um novo ano.

E aos educadores que estiverem lendo meus idealismos, peço socorro para esta criançada que ora se desenvolve. Não é preciso nenhum projeto mirabolante para levar a elas o brilho da vida e da liberdade, apenas e tão somente o carinho desta introdução em cada ensinamento, seja matemático ou linguistico, para que o retorno se faça presente através de adolescentes e adultos mais tolerantes com os demais e respeitosos consigo mesmos.

Diz a lenda, que a cada semeadura nem que seja um broto surge.

Um enorme beijo a todos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OPRESSÃO CULTURAL

Acreditei estar me especializando na área da observação do comportamento humano e, por toda a minha vida, pensei estar aprendendo tudo quanto poderia, e, no entanto, absorvida com a diversidade infinita que me cercava e totalmente fascinada com o que majestosamente me apresentava a cada instante, me perdi totalmente, e, de repente, assim sem qualquer aviso prévio, vejo-me diante de minha não menos infinita ingenuidade avaliativa e percebo, então, o quanto nada sei em relação a capacidade humana em se adaptar às circunstâncias, ou a buscar posições favoráveis à suas conveniências pessoais de adaptabilidade social.Há alguns anos, venho tentando entender o porque de minha paixão por Itaparica, visto que conheci inúmeros outros locais, não menos bucólicos e acolhedores. E agora, como um raio de luz esclarecedor, posso compreender que em minhas buscas pessoais de aperfeiçoamento, encontrei aqui, neste local encantador, todos os subsídios necessários a um aprendizado mais concreto e expli…

Os professores: Um “novo” objeto da investigação educacional?

Houve um tempo, afinal nem tão distante, em que a função da escola era prioritariamente ensinar disciplinas que contribuíam nos universos de cada criança, despertando-as em suas inclinações naturais, na construção de seu futuro perfil profissional e pessoal.
Também era no ambiente escolar que a criança exercitava a convivência, não só com o contrário, mas principalmente com o diferente, deixando aflorar os ensinamentos oriundos de seu núcleo familiar.
Era comum ouvir-se: “a educação vem do berço”.
E este berço, não necessariamente precisava ser abastado economicamente e muito menos letrado, pois havia os conceitos pré-estabelecidos, onde as posturas respeitavam os limites do alheio, criando-se assim normas socais de conduta, não só externa, mas antes de tudo em meio à própria família.
Nesta época a que me refiro, havia uma distinção entre as atribuições tanto da família como da escola, assim como sob nenhuma circunstância esperava-se do mestre qualquer atributo fosse materno ou paterno, a…

O FALSO BOM SAMARITANO...

Há algumas horas atrás, assistia à uma uma aula de Filsosofia da Educação, onde em determinado momento falávamos em interação com o Professor Wilson sobre justamente a humanização de nós humanos.

Cheguei a argumentar que somos incapazes de atingir esta humanização ideal exatamente por que não somos educados ao entendimento da dimensão de nossa própria existência, nem no conceito individual quanto mais em relação a um todo que sequer conseguimos enxergar e muito menos sentir.

Estamos divididos em três facções vivenciais, ou seja: aqueles que crêem em Deus e são religiosos, aqueles que crêem, mas nao são religiosos, e aqueles que não crêem.

Todos, sem exceção, vagueiam em seus cotidianos sem ter qualquer entendimento real do quanto estão desperdiçando seus minutos presentes e, sem sem se dar conta, permanecem repetindo posturas que em sua maioria no máximo os robotizam, tirando lenta, mas sistematicamente, toda e qualquer potencialidade interior que é capaz de impulsioná-los a se verem com…