domingo, 30 de dezembro de 2012

RARAS VEZES, MAS ACONTECE.


 
Hoje, amanheci um pouco diferente do costumeiro. Não olhei para o céu, por incrível que pareça, sequer ouvi os meus pássaros, apesar de saber que estavam ali, bem próximos nas suas costumeiras algazarras matinais e, tão pouco, agradeci à vida, justo por me sentir viva.

Nem mesmo a Catarina, minha filhota de vira- lata, totalmente inquieta, está sendo capaz de distrair-me com suas molecagens ao pé da mesa, onde escrevo.

Como não gosto de me sentir assim, sem graça e sem vontade de sentir algo, enveredo em meu íntimo como uma pesquisadora acadêmica, inclusive, fazendo paralelos com outros momentos já vividos, como este, e até mesmo, tentando fazer conexão com as ocasiões onde como observadora das posturas alheiras, escrevi a respeito, ao mesmo tempo atrevendo-me a sugerir fontes regeneradoras.

Pois bem, casa de ferreiro o espeto é de pau e não é diferente em relação a mim, afinal, creio ser bem mais difícil encontrar um caminho pessoal que não esbarre nas minhas próprias camuflagens, sem ter um observador externo e, portanto, isento de qualquer envolvimento emocional.

Pensando neste empecilho, aparentemente intransponível, lembro-me como flashes instantâneos das milhares de outras situações, onde passei pelo mesmo dilema de proteger-me  desta doença corrosiva, chamada depressão, com a qual convivo desde sempre, sem, no entanto, permitir a ela maiores avanços e destruições à minha vida.

Pensando bem, olhando para trás, sem medos imaginários e até mesmo reais de enfrentamento pessoal, posso inclusive constatar que houve instantes da minha vida em que me senti por deveras sufocada, chegando a achar que não teria forças para suplantar a solidão do encontro comigo mesma, tal a força depressiva que me tirava a visão de minha realidade de ser humano racional capaz de buscar em si, suas próprias alternativas e defesas.

Enquanto escrevo, neste exato momento, como num passe de mágica, ouço os pássaros e ao buscar vê-los, dou de cara com o sol que já cobre as plantas, as flores e principalmente faz reluzir as mangas que, rosadas, enfeitam  como um quadro da natureza, diante da janela onde costumeiramente vejo a mangueira esplendorosa.

Bem, a receita está aí, simples como um singelo, Bom dia.

Basta, sem firulas ou desespero, admitir-se que naquele momento nada está legal, fazendo do passo seguinte, uma constatação do que não está sendo inserido na sua rotina e que era importante e busque resgatar o aparente desaparecido, e que afinal, está no mesmo lugar de sempre.

Admita que a cegueira e a surdez sejam apenas responsabilidade sua e que nada e tão pouco outro alguém tem capacidade de domínio de sua vontade voluntária.

Determine-se a não aceitar desculpas de si mesma, por considerar que como sua própria parceira, não há lugar para a deslealdade de qualquer camuflagem, e aí, provavelmente, você ouvirá os pássaros da sua vida dizendo-lhe:

BOM DIA!  Acorda pra vida, pois ela é bem mais que a sua própria incapacidade de reconhecer e estabelecer o bem estar como sua mais sagrada prioridade.

Neste domingo de sol pleno, desejo a você a erradicação de qualquer indício de depressão que mesmo que negue estar sentindo neste instante, você  sabe que possui, e que se descuidar, lá vem ela cheia de pesos e culpas, raivas e solidão, amolar  a sua vida, empanando os seus instantes presentes, abrindo vácuos que nada que compre ou faça é capaz de  preencher.

 Seja enérgico, fora nela, sem dó e sem piedade.

Um beijo enorme e todo o carinho desta senhora, que apesar de ainda não conseguir evita-la, já encontrou alguns meios de colocá-la para correr.

 

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