domingo, 26 de julho de 2026

MEMÓRIAS AFETIVAS

Acordei com o sabor de banana-da-terra frita e imediatamente minha infância se apresentou. Lembrei-me dos almoços em que minha mãe as fritava para que pudéssemos comê-las com os deliciosos bifes de alcatra que só ela sabia fazer, deixando aquele caldinho saboroso para jogarmos por cima do feijão preto e do arroz. 

Que bom quando algo nos é tão especial que o nosso cérebro registra e, empaticamente, molda nossos sentimentos e emoções ao longo da vida.


Ontem, depois de quase um mês entre remédios, exames e balões de oxigênio, lá estava a Regininha saltitante, de calça jeans e tênis, pisando na grama como uma menina travessa, indo ao encontro de um churrasquinho de origem duvidosa com guaraná no parquinho da cidade. 

Que coisa boa, meu Deus!.

Acabei de passar o meu cafezinho pingado e agora escrevo enquanto ouço Adagios inspirados em Sergei Rachmaninoff, ricas canções que me relaxam e fazem brotar em minha mente deliciosas lembranças. 

Elas também não me deixam esquecer que o importante é o que se vive apaixonadamente, tenha sido uma saborosa refeição, uma pessoa que nos acolheu, um sol bendito no qual nos permitimos relaxar ou um aroma profundo, aquele que nos remete a comidas, lugares e pessoas inesquecíveis.

Viver não é uma questão a ser resolvida, mas um processo a ser vivenciado intensamente. O passado só tem valor se nele estão guardadas experiências boas e ruins, todas com um único objetivo: serem guias condutores, abrindo passagens fluidas para que o aqui e o agora sejam mais leves e ricos de conteúdos prazerosos.

Concluo que o sabor de uma simples banana-da-terra tem o poder de, neste instante, me fazer lembrar de tudo mais que me foi agradável, transformando-me numa eterna menina que sorri e chora por quase tudo, sem medo de ser o que é. 

Assim, não há lugar para o castigo das feridas que permitimos que doam, sufocando o melhor de nós. Finalmente compreendemos que são só detalhes existentes no percurso do ciclo da vida. Então, com o auxílio das memórias afetivas, transformamo-las em folhas secas deitadas aos pés de nossas ações e reações, para que sequem dores, perdas e tropeços. 

Benditos adubos que fortalecem raízes para que as flores e os frutos desabrochem lindamente em nós e em tudo mais com que venhamos a conviver.

Para você que me lê, desejo um delicioso resgate de memórias afetivas neste domingo, na segunda e nos demais dias, onde o prazer de estar em paz e sorridente esteja sob o seu comando e de ninguém mais, haja o que houver.

Regina Carvalho 26.7.2026  Pedras Grandes, SC.

Ilustração. IA

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