sábado, 4 de julho de 2026

NO PELOURINHO DO COTIDIANO

Um esforço incomensurável foi o que precisei fazer para sair da cama neste amanhecer que, cruz credo, parecia gelar a minha alma. Enquanto as pesadas cobertas ainda me aqueciam, minha mente inquieta decidiu que eu precisava deixar registradas o destino que deia as minhas frustrações, a forma como as superei e, ao mesmo tempo, questionava qual importância elas teriam neste mundo tão controverso, repleto de quereres inalcançáveis pelas vias comuns do cotidiano.


Afinal, eu seria apenas mais uma, sem brilhos nem pompas, a expor dores corriqueiras. Algumas delas, inclusive, mais profundas e não curadas, que arrastei vida afora. A quem interessariam as minhas mazelas, se o que não tem faltado neste mundo são justamente as atrozes dores? 

Dores que, como chicotes de couro molhado, cortam profundamente a pele nos pelourinhos do cotidiano, ferindo de morte a alma sem que haja um só remédio capaz de aliviar ou salvar, além da tenaz capacidade humana de sobreviver, custe o que custar.

Fecho os olhos, paro de digitar e deixo a mente viajar sem rumo. Por experiência, sei que ela irá ancorar no devido cais. Um velho conhecido que, se a fez dobrar-se de dor, também abriu espaço, permitindo-lhe limpar o sangue invisível das feridas expostas, banhando-a com as águas benditas da fé e secando-as sob o céu da esperança.

De repente, percebo o quanto esta mente, pra lá de esquisita, foi minha parceira na cura. Afoita, curiosa e incapaz de desistir, ela me impulsionou a não entregar, por razão nenhuma, os pontos da colcha de retalhos que a persistência me fazia tecer. 

Esses retalhos surgiam um a um, cada qual com o seu corte irregular, mas, incrivelmente, logo se adequavam à beleza que eu imaginara que viria a ser depois de pronta.

Pronta? Que audácia crer que a verei pronta. 

Vaidade constatar que não fui derrotada... Então, iludo-me e amparo-me na fé, deixando minhas linhas e minha agulha para quem desejar usar, a fim de costurar suas próprias dores na feitura de sua particular colcha.

Regina Carvalho, 04/07/2026 – Pedras Grandes, SC

Ilustração-IA

Nenhum comentário:

Postar um comentário

NO PELOURINHO DO COTIDIANO

Um esforço incomensurável foi o que precisei fazer para sair da cama neste amanhecer que, cruz credo, parecia gelar a minha alma. Enquanto a...