domingo, 25 de janeiro de 2015

SE NÂO HOUVER O DEPOIS...


Hoje é mais um domingo deste ensolarado janeiro de 2015.
Reflito sobre a fantástica certeza de estar viva e poder sentir o cheiro meio que azedinho das muitas mangas rosas que, de tão pesadas e maduras, caíram e se esborracharam no jardim e que, em seu processo natural de decomposição, fertilizam o solo.
Aproveito que mais uma vez tenho o privilégio de acordar e constatar o fantástico fato de estar viva e, então, respiro fundo, pois sei que existem mil outros aromas para serem sorvidos pelos meus sentidos e, é claro, que não posso, não devo e não quero ficar fora deste processo de integração com a vida, pois na inconsequência da vida cotidiana, na maioria das vezes, deixei para depois, sem que houvesse qualquer indicação real que haveria um depois.
Pois é....
Enquanto respiro e penso em tudo isto, diante de minha mente sempre muito preocupada com a fundamentação de suas próprias constatações ou mesmo divagações, faz desfilar em ritmo acelerado milhares de cenas por mim vividas, dando vez por outra, pausas convenientes, para que eu possa, então, visualizar as inúmeras vezes em que deixei de expressar meus sentimentos fosse com palavras, pensamentos ou ações.
Sinto-me absurdamente chocada com a minha própria alienação em não ter percebido desde cedo a importância dos instantes presentes e oferecer a eles o melhor e mais autêntico de mim, pois afinal, só isto permanecerá, seja nas lembranças dos que me cercam, seja nas vibrações energéticas que movem a vida do todo universal.
Nossa, Regina!...
Hoje é apenas mais um domingo que sequer amanheceu totalmente e você já está filosofando sobre o universo e o escambal?
Me poupe, pelo amor de Deus!!!
Está é a voz que ouço e que sempre sorrateira e inoportuna, tenta, e muitas vezes consegue, tirar-me do rumo, e daí, as pausas que minha mente amiga acabou de me oferecer, talvez, creio eu, em forma de lembrete urgente, para que eu não esqueça o que perdi e dos riscos bobos que corri adiando para depois, sentimentos e emoções que eram únicas, em não dizer por exemplo que amava, estava triste ou chateada com alguém ou com alguma situação, de não expressar minha revolta, meus medos e minhas aflições, de não sorrir, abraçar e beijar tudo quanto me agradava e me fazia naquele instante, feliz.
E aí, penso na morte, nas lágrimas e penso nas poucas ocasiões em que mesmo tendo a voz safada querendo me impedir de transparecer meus sentimentos, resisti e me entreguei, doando-me sem restrições, mesmo diante da incompreensão de muitos ou de alguns que, infelizmente, não tiveram a sorte de ter, como eu, muitos depois, para estar agora recordando e sorrindo das lágrimas que jamais consegui derramar por estar dando adeus à inestimáveis pessoas, lugares, animais ou simplesmente coisas com as quais eu convivia e gostava de pensar que de alguma forma me pertenciam.
Respiro fundo e de verdade posso identificar se não muitos, pelo menos aqueles aromas benditos que me fazem pensar na vida e na gratidão por tê-la neste domingo, que já dá sinais de que vai ser ensolarado nesta minha adorada Itaparica que eu não deixo de exaltar a cada instante presente, por que afinal, se não houver um depois, certamente a terei curtido e saboreado com a boca e a alma alegres, como farei agora com uma das mangas que percebo estar lá, em meio a tantas outras, apenas me convidando a ser feliz.
Que neste domingo todos nós possamos desnudar as nossas almas, expressando os nossos sentimentos, fazendo da vida régua e compasso para um delinear mais preciso, de amor e liberdade.
Porque, afinal, pode não haver um depois...


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